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Correio da Manhã

Opinião
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8 de Julho de 2003 às 00:00
A semana passada foi a do debate na AR sobre o Estado da Nação. Indispensável, apenas, porque o sistema tem necessidade dos seus enfeites e a dignidade do estado também se alimenta destes inocentes rituais.
Porque o verdadeiro balanço, que é tão-só o somatório das contas do nosso calvário, fazem-no os Portugueses todos os dias.
Conhecem de perto as restrições aos seus gastos, sabem o que é e o que lhes custa a inflação, mas já pouco lhes interessa saber porque, e como, variam o consumo e o investimento públicos, o PIB, o défice externo e porque é que ninguém controla essa entidade sem corpo nem alma, mas que não é virtual, e nos persegue a todo o momento, que dá pelo nome de défice público.
Os cidadãos não fingem e são mais pragmáticos. Fogem das linguagens herméticas e rebuscadas e gostariam mais de ouvir todos os dias a linguagem que lhes falam durante os períodos pré-eleitorais. Com que ninguém tem dificuldade em se fazer entender.
Oferecem-nos, ciclicamente, estatísticas e projecções. Mas os números são frios. Nada nos dizem sobre o sentir das pessoas, as suas preocupações diárias, os seus muitos dramas,aspirações e desesperos. Esses escapam à crueza dos números.
Sabemos que o desemprego até nem sequer é ainda dos mais elevados da Europa. Está muito abaixo da média da zona euro e longe do de Alemanha, França e Espanha, mas não pára de aumentar nem tem fim à vista.
É claro que ninguém precisa destes debates para saber o estado em que o país e os Portugueses se encontram. E que no fundo só mascaram a realidade. A maioria dos Portugueses começa mesmo a estranhar esta espécie de balanço apressado de merceeiros com aspirações a grande gala.
Com ou sem debates sabemos que o estado da nação não apresenta melhoras.
Que ninguém sabe até quando vai estar empregado. Ou quando o irá estar. Se, quando reformado, vai poder usufruir, ou não, de uma pensão de reforma atrás da qual correu toda a vida.
Que a corrupção continua à solta. Que ninguém sabe ao certo qual vai ser o resultado das reformas já iniciadas pelo governo.
Que está por demonstrar a bondade do rumo que está a ser imprimido ao Sistema Nacional de Saúde. E a bondade da nova moda quanto à gestão hospitalar. O interesse real a médio e longo prazo, da introdução dos genéricos. Que já ninguém se surpreenderia que o caminho escolhido possa conduzir a uma situação em que quem tiver dinheiro (pois até para ter um seguro de saúde é preciso ter dinheiro) tem serviços disponíveis e quem o não tiver ou espera por um milagre ou morre sem assistência médica.
Que o estado, representado sempre a título precário, por quem mais resistência demonstrou e melhor estratégia definiu, nessa corrida sem regras que conduz ao poder, continua a delapidar o nosso património.
Que a luta surda e sempre negada entre os poderes político e judicial pode desembocar num resultado que nos fará regredir décadas.
Que ninguém entende porque é que há tantos sectores da nossa economia que são altamente rentáveis nas mãos dos particulares, e ruinosos quando integrados no sector público.
Que da nossa agricultura já quase nada resta e não tardará o dia em que os nossos campos sejam verdadeiros desertos. E até para comermos começamos a depender perigosamente de terceiros.
Que as nossas pescas estão em risco de desastre nacional por incapacidade dos nossos dirigentes.
Que com tantos sectores vitais a necessitar de rápidas injecções de capitais se continua a insistir em gastos absurdos em compras de submarinos que não servirão rigorosamente para nada e cuja aquisição se "justifica" à sombra de supostas contrapartidas enfeitadas por um marketing tão excelente que nos leva a perguntar-nos porque não adquire Portas, então, umas centenas deles , resolvendo por muitas gerações os problemas da nossa indústria.
Que os jovens saem das universidades sem a menor perspectiva de emprego, enquanto instituições de ensino privado enriquecem à sua custa.
Que até na cultura as invejas, os compadrios, o clubismo e a curteza de vistas proliferam.
Que, não fosse a cepa de que os Portugueses são feitos, este país já estaria completamente destruído há muito tempo.
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