Barra Cofina

Correio da Manhã

Opinião
5
27 de Abril de 2003 às 00:00
Faz amanhã uma semana que Luís Filipe Vieira declarou, num registo populista já sobejamente conhecido, que o Benfica será o maior do Mundo. Dito assim, sem mais nenhum argumento, a frio, Filipe Vieira sabe que não correria perigo algum, porque enquanto houver Mundo a sua previsão, em tese, pode concretizar-se. Há hipóteses académicas que duram a vida da Humanidade. Pierre Dac disse que o futuro é o passado em preparação. Mas Filipe Vieira vai muito mais longe, mais longe ainda do que o conceito segundo o qual a morte é um princípio de vida. Contudo, o que torna a asserção verdadeiramente grave e gratuita é a fixação de um tempo concreto para que a profecia de Filipe Vieira se concretize - três anos três! Quer dizer: segundo o ministro da Informação do Benfica, perdão, presidente da SAD, os ‘encarnados’ serão em 2006, dois anos depois do 'nosso' Europeu, o maior clube do Mundo. Acredito que haja portugueses, não necessariamente benfiquistas (ou deverei dizer vieiristas?), que não se importariam que o Benfica se tornasse, de facto, o maior clube do Mundo. Seria um prestígio para o País -- e todos os portugueses, benfiquistas ou não, lisboetas ou não, acabariam por achar algum benefício nessa confabulada pretensão. Acontece, porém, que o vieirismo, corrente de pensamento que não fica muito longe do voyeurismo, no sentido da projecção de uma espécie de simplicidade excêntrica, em que nada existe de audacioso sem a desobediência às normas, já provou as suas quebras de fiabilidade, como aquela em que proclamou a constituição de uma equipa maravilha desafiando os limites da instantaneidade. Viu-se o resultado. Mas Filipe Vieira não parou, fiel à máxima de que também somos ricos com as nossas misérias. Definiu como objectivo máximo a conquista do título. Porém, como tudo é relativo menos o infinito, o presidente da SAD ‘encarnada’ passou descalço por cima do braseiro sem queimar os pés. Porquê? Porque tem uma colecção de coelhos dentro da cartola. Ter coelhos, hoje em dia, neste tempo de sobremesas nitrofuradas, é um bem essencial, embora já não os possa haver de estimação. Ou se comem ou se utilizam nas cartolas. O vieirismo é quase um estado de hipnose. Corre-se o risco de entrar em transe e de lá nunca mais sair. O vieirismo é um labirinto. E tem sabor. Não é amargo nem doce. Sabe a água tónica. Não se anuncia. Aparece. O recrutamento dos soldados pode surgir mas só depois de se terem feito muitos mártires. Afinal, ficar em segundo lugar e ir às pré-eliminatórias da Liga dos Campeões significa ser campeão. O vieirismo é especialista em interpretações. Em (e)vidências. Camacho ainda nada tinha decidido sobre o seu futuro, mas os sequazes do vieirismo, que são uma máquina fulminante de propaganda, já tinham decidido por ele: fica porque sim! Alguns dos maiores sustentáculos do vieirismo residem em Alvalade. No bairro chique das omissões estendeu-se a passadeira vermelha. Gente muito conservadora só podia mesmo conservar Bölöni. É preciso ter muita lata, face aos inúmeros erros do romeno que a SAD, a certa altura, transferiu para si própria. Bem pregou S. Mateus: "deveis estar atento e rezar para não cairdes em tentação: o espírito é diligente, mas a carne é fraca". Tão fraca que só de penalty à beira-mar plantado. A ideia de Filipe Vieira, quando diz que o Benfica será o maior clube do Mundo dentro de três anos, é uma receita digna de Pantagruel: aos seis milhões de benfiquistas nacionais, junta-se uma pitada de benfiquistas insulares, bate-se depois em castelo com mais um milhão de benfiquistas espalhados pelo Mundo e só depois se lhes adiciona o fermento. Receita é a palavra certa, porque esses benfiquistas terão todos um cartão de crédito que servirá para ser utilizado, e só, no supermercado Benfica. Filipe Vieira tem um sonho: fazer do vieirismo uma religião. A religião segundo a qual o verdadeiro milagre não é caminhar sobre as águas e voar nos ares mas sim caminhar na terra a caminho do céu. O amor transformado em dízimos.
A declaração do ano surge numa semana em que o FC Porto se qualificou para a final da Taça UEFA; numa semana em que Old Trafford projectou o que o futebol tem de melhor, na sua vertente espectáculo; numa semana, enfim, em que o Real Madrid exibiu Ronaldo, não como uma estrela que faz uma equipa mas com uma equipa que sustenta essa estrela.
Em 2006, o presidente da SAD talvez possa reconhecer que todo o poder sem controlo leva à loucura. O Benfica cresce, o Mundo mingua - na visão napoleónica de Luís Filipe Vieira, grande coleccionador de coelhos.
Ver comentários
Newsletter Diária Resumo das principais notícias do dia, de Portugal e do Mundo. (Enviada diariamente, às 9h e às 18h)