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Correio da Manhã

Opinião
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Fernanda Palma

Ódio político

O nível do político, na acepção etimológica de “governo da cidade”, deve corresponder aos critérios e metas que tornam cada pessoa um ser comunitário e não um simples indivíduo isolado. Por isso, o ódio político é, em si mesmo, um contra-senso. Na realidade, o ódio político só pode ser antagónico do governo comum, visto que pretende excluir e até mesmo eliminar, na versão mais radical, o outro.

Fernanda Palma 24 de Outubro de 2009 às 00:30

O ódio político é, na actualidade, uma circunstância agravante do homicídio doloso, cuja pena máxima eleva de 16 para25 anos de prisão. Todavia, na vigência do Código Penal de 1982, receou-se, durante muitos anos, que a punição mais severa do homicídio por ódio político pudesse levar a perseguir penalmente a “violência revolucionária” ou os simples adversários políticos.

Creio hoje, no entanto, que o ódio político merece ser posicionado no patamar de censurabilidade agravada em que se situam, por exemplo, o ódio racial, o ódio religioso e o ódio sexual, porque corrói os fundamentos do Estado de Direito Democrático. Em Portugal, há demasiada agressividade política, que merece a condenação firme e enérgica de todos os dirigentes e responsáveis.

O recente homicídio, praticado numa pequena localidade, no contexto das eleições para as autarquias, não foi apenas um fait-divers do Interior esquecido, mas a demonstração da falta de sentimentos comunitários e da perversão da actividade política. Trata-se de um sintoma de algo que já se tinha revelado, com menos intensidade, em escaramuças entre adeptos de campanhas rivais.

Os lamentos e condenações unânimes não são suficientes. Perante situações tão graves, é indispensável adoptar, com urgência, um discurso de responsabilidade cívica e práticas políticas mais racionais. Temos assistido a uma radicalização da política que afasta as mulheres, os mais idosos e, em geral, os grupos sociais menos agressivos, por lhes faltar o ânimo e a vontade de dominar os outros.

O poder de dominar os outros deve ser substituído pela capacidade de realizar fins comuns e alcançar uma vida comunitária feliz. A actividade política deve tornar-se menos ‘profissional’ e aproximar-se, cada vez mais, de outras actividades sociais. Só assim se conseguirá uma cidadania plena, ultrapassando-se a tendência para o desinteresse, a abstenção e a desconfiança em relação à vida pública.

É necessário, por conseguinte, ‘des-profissionalizar’ a vida política e torná-la um campo aberto ao desenvolvimento de capacidades, convicções, ideais, afectos e racionalidades com um sentido comunitário de serviço público.

É imperioso deixar para trás a agressividade no debate político e também a paixão pelo poder. Numa sociedade democrática, o ódio político deve ser completamente erradicado.

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