Odisseia: Uma viagem inovadora na ficção televisiva

Odisseia: Uma viagem inovadora na ficção televisiva

Os primeiros episódios de Odisseia (RTP) revelam uma série bem pensada, produzida, realizada, interpretada e com inovação na ficção televisiva. Inova na complexa narrativa. Ou melhor, narrativas. Odisseia desdobra duas histórias paralelas que se cruzam e misturam num novelo exigente para espectadores habituados apenas a estórias da Carochinha, sejam elas românticas ou policiais.
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10.02.13
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Odisseia: Uma viagem inovadora na ficção televisiva

Bruno Nogueira e Gonçalo Waddington representam-se a si mesmos nas duas: eles aparecem escrevendo o argumento da série e, depois, na estória que estão a escrever. Assim, enquanto argumentistas, vêmo-los discutindo com o produtor ou o realizador cenas que vimos ou veremos. A teia dos dois novelos não termina aí, pois as cenas da narrativa principal (a viagem dos dois pelo país, numa paródia quer da Odisseia de Homero, quer do género dos "road movies") acabam por originar uma terceira estória ao transformarem-se em cenas da própria filmagem. No melhor momento, os protagonistas são obrigados à roleta russa, mas o clímax da cena é interrompido com a discussão entre os actores por causa da força das chapadas que um terceiro lhes dá.

A complexidade aumenta também se a ordem de desligar a câmara não é cumprida, ou quando o sempre excelente Nuno Lopes aparece quer como ele mesmo quer num dos papéis que representa na narrativa principal, confundindo os dois colegas.

São processos que vêm da literatura. Há séculos que os romancistas se intrometem no curso das suas intrigas. No romance ‘A Amante do Tenente Francês’ (1969), de John Fowles, o autor interrompe a coerência da narrativa dizendo que não estava a controlar as personagens e reescreve-a com alternativas. O dramaturgo Harold Pinter, na adaptação cinematográfica (1981), desenvolveu esta intrusão da "realidade" autoral na ficção com um romance paralelo entre os actores que estão a filmar o próprio filme da estória do tenente e da amante na época vitoriana. No final, a actriz deixa o actor, e ele, ao vê-la afastar-se, grita o nome dela — não da personagem actriz, mas da personagem vitoriana que ela representou. As duas narrativas vão tendo vida paralela até se encontrarem nesse ponto. Em Odisseia, as narrativas estão sempre a pisar-se uma à outra e a criar desdobramentos.

Odisseia é uma comédia, não de "piadas", mas de situações e diálogos. O arranque foi lento, para habituar o espectador à metaficção (a ficção que fala de si mesma) e à mise-en-abyme (a duplicação interna da obra); no terceiro episódio já o argumento complexo se concretiza agilmente, com inteligência e eficácia.

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2 Comentários
  • De David10.02.13
    O 4º episódio com a participação de Rita Blanco pôs fim a qualquer dúvida que podia existir sobre a capacidade de Nogueira e Waddington como actores. Nas cenas sem Rita Blanco a penumbra abate-se sobre a série.
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  • De Isabel Metello10.02.13
    É tudo um palco! O interessante é perscrutar o que está nos bastidores! A realidade ultrapassa em muito a ficção e a verosimilhança aristotélica! Quando há Princípios, é tudo corrido pelos mesmos!
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