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Correio da Manhã

Opinião
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13 de Julho de 2008 às 00:00

Eram os Anos Dourados do Brasil, com Kubitschek (‘o Presidente Bossa Nova’), a invenção de Brasília e o primeiro título mundial de futebol (o esplendor de Pelé e Garrincha). Uma infusão de samba e jazz, intimismo minimalista, singeleza e requinte, a BN nasceu em enclaves confortáveis e nunca inflamou as massas. Teve inúmeros cardeais e dois papas. João Gilberto compôs um dos seus hinos: ‘Chega de Saudade’, de uma delicadeza aparentemente simplória ('Há menos peixinhos a nadar no mar/Do que os beijinhos que darei na tua boca'), mas que implicava um rigor obsessivo, tão erudito como inovador.

Já Tom Jobim assinou uma das mais adoráveis elegias melódicas de sempre, inspirada por uma coisinha fofa de 14 Primaveras: ‘A Garota de Ipanema’. Conheci a musa, Heloísa Pinheiro, quando ela rondava os 40 anos – ainda era de parar o trânsito do GP de Monza. Até a penúltima contagem, a canção teve 200 gravações, entre as de Frank Sinatra, Ella Fitzgerald, Nat King Cole, Louis Armstrong. A internacionalização da BN consumou-se com um concerto da tribo no Carnegie Hall, em Nova Iorque. Diz Carlos Lyra: 'Era uma rebaldaria.

Quis fugir do palco, mas Jobim, sempre medricas, choramingou: ‘Estás doido? Aqui eles têm cadeira eléctrica!’'. O disco ‘Getz-Gilberto’ recebeu 7 indicações para os Grammy e embolsou quatro, incluindo o de Melhor Canção (derrotando ‘I Wanna Hold Your Hands’, dos Beatles). Como tudo o que é bom, a BN é fruto do talento individual e de um Zeitgeist (o espírito de uma época).

Duas personagens não musicais (uma delas quadrúpede) são emblemáticas. Barbado era um rafeiro que frequentava os bares de Ipanema – e emborcava a cerveja que os boémios lhe serviam num prato de sopa (para que não bebesse de estômago vazio, davam-lhe antes um bife). Apesar de copofónico, jamais foi atropelado – apanhava um autocarro, entrando e saindo sempre nas mesmas paragens. Já o bípede Ronald Chevalier era assíduo nas tertúlias.

Esquelético como uma top model, depois do milionésimo copo virava o ‘Hulk’. Batia bastante e apanhava muito mais. Um dia, um brutamontes que o desmembrava bufou: 'Chega ou quer mais?' E ele, no chão, com o sapato do mastodonte sobre o seu pescoço, conseguiu olhar para cima e articular: 'Cansou, filho da p...?'

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