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Correio da Manhã

Opinião
19 de Julho de 2004 às 00:00
Uma dessas organizações internacionais que gosta de dizer coisas decidiu apresentar queixa, no Conselho da Europa, contra o Estado português. Pretexto: este país não defende as crianças. Quem conhece a falta de ginásios nas escolas, as ruas sem passeios e as cidades sem parques, a inexistência de apoio aos jardins-escolas, os dentistas serem pagos a peso de ouro e, para ir mais directo ao assunto, quem sabe que houve uma Casa Pia, da maneira que havia aquela Casa Pia, não pode estar mais de acordo. Este país não defende as crianças.
A organização internacional quer, porém, atacar o Estado português porque não há por cá uma lei contra o tabefe. Há leis contra a violência em pessoas, em geral. Há até leis específicas contra os maus tratos de crianças. O que não há é uma lei determinada que diga: um pai, ou uma mãe, não pode dar uma galheta no filho. Para aquela organização, essa ausência legal é um insulto à Humanidade. Não exagero, porque um dos defensores dos propósitos dessa organização disse a um jornal que quem dá uma bofetada no filho trata-o como se ele “fosse propriedade sua.” Estou a ver: “Serginho, não atires o copo ao chão. Séeerginho!”, e palmada no rabo do miúdo, quem faz este gesto atroz só pode ser um descendente do armador do ‘Amistad’, o barco com escravos a apodrecer no porão.
Não exagero, repito: a organização que compara o Estado português a cúmplice de esclavagistas chama-se Organização Mundial Contra a Tortura. Aliás, outro dos apoiantes da lei contra o tabefe disse que o “olhar de ódio” dos pais também devia ser punido. Com a dele, ele queria dizer que a luta contra o tabefe não era senão o primeiro passo, devia passar-se ao combate às torturas psicológicas. Pai apanhado a levantar a sobrancelha porque o ganapo insistiu em puxar a toalha da mesa no restaurante, deve ser denunciado e preso.
Tenho para mim que os defensores desta medida me parecem os estilistas homossexuais que, por não desejarem as mulheres, impuseram o tipo de mulher anoréctica como modelo. A Organização Mundial Contra Tortura, e a chusma de “pedo” qualquer coisa que a aplaude neste caso, não gosta de crianças. Não a criança com C grande, uma ideia como Ambiente ou Lince da Malcata, mas o Sérgio, de seis anos, que precisa de aprender que há coisas que pode fazer e outras não. E que, por vezes, como sabe quem já lidou com Sérgios de seis anos e não com ideias vagas, a autoridade tem de impor-se. Há maus pais que se impõem com violência e há maus pais que se estão nas tintas para se impor. E há pais que não acham que os filhos sejam sua propriedade nem acham que são uma chatice, acham, isso sim, que são da sua responsabilidade. E esta para se cumprir pode precisar de um tabefe.
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