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Correio da Manhã

Opinião
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22 de Dezembro de 2007 às 00:00
Muita água ainda vai passar debaixo das pontes. As Associações vão reivindicar a sua importância histórica no desenvolvimento do futebol português a nível nacional. Vão espernear, estrebuchar, porque não querem perder a influência que vinham protagonizando no sentido de não consentirem as reformas profundas que o futebol nacional necessita.
As Associações devem ter como preocupação, orientadas por uma Federação que não se deveria desviar nunca desse caminho, fomentar o crescimento do futebol pela base. Muitos dos clubes territoriais não têm nem vocação para o futebol profissional nem condições para superar os parâmetros por ele impostos. As respectivas Associações deveriam preocupar-se sobretudo em qualificar e quantificar a intervenção do jogador jovem no espaço distrital e canalizar os melhores para as respectivas Selecções Nacionais.
Neste contexto, as Associações tiveram um papel enquadrado e participativo numa lógica de dar mais e melhor competição aos jogadores com idades compreendidas entre os 13 e os 19 anos (genericamente). Foram células determinantes no âmbito de um plano de desenvolvimento do futebol português que marcou duas décadas da história da Federação e da bola indígena em geral.
Só para dar um exemplo, João Pinto, hoje no Sp. Braga, mas que teve desempenhos proeminentes no Benfica e Sporting, é um produto do Torneio Interassociações organizado pela FPF. Fazia parte da Selecção da AF Porto, no começo da sua carreira.
Este trabalho concorreu para que a Selecção Nacional fosse recebendo jogadores cada vez mais competitivos. A chamada geração de ouro é um produto de um sistema integrado de envolvimento das Selecções Distritais. Alguns desses jogadores estão agora em fim de carreira ou a começar um novo ciclo como treinadores.
Um trabalho que foi sendo abandonado em nome de uma centralização quase exclusiva na Selecção Nacional (mais representativa), à semelhança do que acontecia na década de setenta e no início dos anos oitenta.
É preciso recuperar esse tempo, mas a FPF já deixou cair o essencial: a dinâmica, a rotina e o fio condutor até à Selecção Nacional. Com as Associações, no plano em que elas se devem encontrar – embora não vá ser fácil o convencimento deste papel nobre a protagonizar –, talvez seja possível abrir um novo ciclo. Principal contra: a mentalidade.
As Associações foram, durante anos a fio, o bastião do caciquismo no futebol. O jogo das influências, que teve como alvo preferencial a arbitragem.
As jogadas de bastidores, os chitos nas vésperas das Assembleias Gerais da FPF, as manigâncias para algumas das Associações continuarem a mexer na panela.
Neste plano, a ética foi algo que nunca existiu.
Algumas Associações sentiam-se muito bem no papel de braços armados de certos clubes. A caracterização do sistema passou pela capacidade que sempre tiveram para colocar os seus homens de mão em lugares decisórios de crucial importância.
As Associações com mais peso eleitoral foram sempre determinantes na escolha de conselheiros de elite. As decisões, no âmbito da arbitragem e dos conselhos disciplinares, podem ajudar a ganhar muitos campeonatos.
Este lado subversivo do papel das Associações tem de acabar. Não é mais suportável este regime que apela à competência do campeonato das influências. O futebol português – os Clubes, as Associações e tudo o que rodeia a competição – tem de se habituar à ideia de que a qualidade do trabalho deve ser decisiva na conquista dos títulos e não as jogadas de bastidores.
Esvaziar as Associações e dar-lhes importância noutros planos é fundamental para o processo de aquisição de credibilidade do futebol português.
Mentalmente, ainda há muito a ideia de que mais vale ter alguém na Liga ou na Federação do que comprar bons jogadores e apostar em regimes competitivos exigentes.
Os dirigentes dos Clubes também têm de ser motivados a seguir um novo caminho. Com a pressão do poder político, até agora a cumprir uma função passiva e, às vezes, até nojenta. De compadrio perante situações visivelmente insustentáveis.
Esta prenda que Laurentino Dias acaba de dar às Associações não é contra ninguém. É a favor de um desporto mais regulado. Extirpando os cancros.
NOTA – A EMEL, em grave situação financeira, distribui prendas simbólicas. O País está como a EMEL: de tanga, mas com dinheiro para muitas prendas.
NOTA 1 – A insegurança em Portugal está a crescer porque quem mata, rouba e assalta vinha adquirindo total noção de impunidade. A operação ‘Noite Branca’ prova que, quando há vontade (política), há resultados.
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