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Correio da Manhã

Opinião
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8 de Outubro de 2004 às 00:00
Marcelo Rebelo de Sousa, que nunca morreu de amores por Santana Lopes e é um verdadeiro esmero na arte de pôr os nervos em franja aos seus alvos preferidos, fez esta semana saltar um inesperado coelho da cartola.
Denunciando, apenas, algumas debilidades do Governo. Que, inseguro, deixou saltar a tampa.
Estava bom de ver que um Governo saído do nada, sem raízes nem perspectivas, sem tempo para criar os mecanismos de defesa para os vírus da governação, seria, mais tarde ou mais cedo, presa fácil para tão hábil predador. Foi o que aconteceu.
Desajeitadamente e não dizendo coisa com coisa, mais em termos de lamúria e de lamentação do que na afirmação de uma razão, Santana mandou um tímido emissário fazer queixinhas.
E reclamar a consagração de um lírico contraditório transportado dos tribunais para o comentário político. Convidando-nos, assim, a ficcionar um cenário em que os jornais e televisões são tribunais, os governantes os réus, todos nós os ofendidos e os comentadores os nossos advogados de defesa. A dramatização que se seguiu é apenas um epifenómeno irrelevante. O que está em causa é a verdadeira motivação de Santana e a verdadeira natureza dos seus impulsos.
Em primeiro lugar impõe-se perguntar ao Governo quem exerce por nós esse direito ao contraditório quando ele, refugiado numa maioria aritmética e na protecção de um sistema de que é co-criador, ataca interesses colectivos, toma decisões desastrosas, mete os pés pelas mãos e se mostra incapaz de resolver os mais prementes problemas dos cidadãos. Onde está o nosso direito ao contraditório? Aí toma-se a fatalidade por normalidade e o governo descansa.
Depois vem o caricato da reivindicação. O Governo só estaria satisfeito com o extermínio de todos os comentadores que não estivessem ao seu serviço. Mas mascara o seu desejo inventando a anedótica figura da contradição dos comentadores. Só possível, evidentemente, com a criação da figura do “contraditor” encartado. O homem que estaria de serviço em todas as estações de televisão ou redacções de jornais, atento e actuante, de prevenção aos excessos dos comentadores...
É , pura e simplesmente, humor negro.
O Governo não tem de se defender dos cidadãos e dos comentadores. Desgraçadamente, somos todos nós que temos que nos defender dele.
Não há governo nenhum que nos seus momentos de fraqueza não sonhe com uma qualquer forma mais ou menos sofisticada de censura. De exterminar críticos e de sentir que, afinal, manda.
Se Santana Lopes não sabe, nós, modestamente, damos-lhe uma ajudinha: o único contraditório eficaz e que o Governo tem legitimidade para fazer é calar os seus críticos com obra (bem) feita.
Exibir independência, seriedade, competência e vontade de resolver os problemas.
O resto é tudo má fé ou pobreza de espírito. Que venha o diabo e escolha.
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