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Correio da Manhã

Opinião
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24 de Julho de 2005 às 00:00
Independentes. Foi António Guterres, através da criação dos famosos “Estados Gerais”, quem primeiro ‘piscou o olho’ aos independentes. A filosofia era mostrar que o Partido Socialista era uma força política aberta a todas as tendências da sociedade portuguesa e que, se fosse Governo, acolheria na mesma proporção as contribuições da sociedade civil e da máquina partidária.
Sousa Franco foi o “rosto” dos independentes durante a governação de António Guterres. Defendido pela reputação que construiu enquanto presidente do Tribunal de Contas, Sousa Franco assumiu a pasta das Finanças e o “choque” foi imediato com a ‘entourage’ socialista. São célebres as histórias que então correram sobre as ausências do catedrático nos Conselhos de Ministros e nas conversas privadas com António Guterres.
De trato difícil (pela convicção com que assumia em todas as medidas que propunha), Sousa Franco começou a ganhar anticorpos entre os seus colegas de Governo e começaram a sair na imprensa as primeiras notícias que visavam minar a sua figura à frente das Finanças. Sousa Franco acabou por sair, sendo substituído por Pina Moura.
Campos e Cunha não esteve (como aconteceu com Teixeira dos Santos, Teodora Cardoso, Manuel Pinho ou Mário Lino) nas “Novas Fronteiras” de Sócrates, mas foi o nome charneira apresentado pelo actual primeiro-ministro a Jorge Sampaio. Catedrático, independente e tecnicamente irrepreensível, Campos e Cunha foi um “trunfo” de credibilidade no novo Governo.
À semelhança de Sousa Franco, Campos e Cunha viu que o País estava mal. E disse aos portugueses a verdade sobre o Estado do País.
Estado de calamidade. A seca e os incêndios estão a atirar os agricultores para o desespero. A Comissária Europeia da Agricultura veio a Portugal inteirar-se da situação e estudar as possíveis formas de ajuda. Com o pragmatismo dos dinamarqueses, Mariann Fischer Boell disse que “não é possível recorrer sempre à ajuda externa” e há que ter soluções para enfrentar estas situações.
Como bom português, Jaime Silva colocou o problema de uma forma mais prosaica: “Portugal não pode ir bater sempre à porta do vizinho”. Este não é um problema de dinheiro...é um problema de atitute. A calamidade do nosso Estado começa na falta de um forte exercício de cidadania.
Espanha sofreu uma tragédia esta semana, com a morte de 11 bombeiros. No dia seguinte ao desastre, a vice-presidente do governo visitou o local e viu-se rodeada por uma multidão enfurecida. O que reclamavam os habitantes de Guadalajara? Subsídios? Apoios financeiros? Não. O que os cidadãos exigiram ao Governo foi a análise imediata dos procedimentos que tinham falhado e resultado na morte dos 11 bombeiros. No dia seguinte o secretário do Ambiente pediu a demissão.
Quantos ministros do Governo de José Sócrates visitaram as zonas de incêndio? Quantos se abriram ao contacto com as populações flageladas pelos fogos? O exercício da cidadania esbarra com a falta de sentido prático dos nossos governantes, que discursam em Câmaras de Comércio e clubes privados, onde o cheiro da floresta queimada não se faz sentir.
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