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Correio da Manhã

Opinião
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19 de Maio de 2007 às 00:00
1.Maria José Morgado falou em ‘dinheiros sujos’ no futebol. Prometeu um combate sério nessa área.
2.Dias da Cunha, ex-presidente do Sporting, chamou a atenção para a existência de contabilidade criativa nos clubes.
3.Durante muitos anos, o fenómeno dos contratos paralelos enxameou a modalidade.
4.Pagava-se sob a mesa a ‘parte de leão’ e declarava-se o mínimo. Tudo com a conivência da FPF, da Liga e dos clubes.
5.O futebol criou um território com leis próprias e regras específicas. Uma espécie de seita, na qual era necessário validar o acesso ao seu interior.
6.Quem não fizesse uma espécie de ‘juramento de sangue’ (pacto de silêncio perante os podres da seita) não entrava. Ou ficava à porta ou era banido. Havia ainda lugar para os ‘excomungados’. Os meio arrependidos.
7.Hoje a situação não é muito diferente. Continuam os pactos, as omissões, os silêncios, os medos, as chantagens, as ilegalidades.
8.A Comunicação Social desportiva reflecte exactamente isso. A cadela do Mourinho, num jornal de referência, é mais importante do que a notícia segundo a qual metade dos clubes profissionais tem salários em atraso com os seus jogadores.
9.Continua a existir competição profissional com os clubes a não cumprirem as suas obrigações (ou parte delas). A FPF e a Liga, como sempre, cruzam os braços. Não reagem perante as situações incómodas.
10.A técnica é antiga: quando uma notícia se torna dominante, não há nada como desviar as atenções para outra notícia.
11.Na política e no futebol, essa técnica é recorrentemente utilizada e provoca efeitos junto dos incautos.
12.Com o desaparecimento de Maddie deixou de se falar das grandes questões que preocupam os portugueses (sem deixar de dizer que, obviamente, todos os seres humanos, não considerando as aberrações, desejam o regresso da menina inglesa!).
13.A corrupção é um fenómeno que necessita de ser combatido. No futebol, nas Câmaras, no aparelho do Estado, na Banca, etc.
14.O ‘Apito Dourado’ foi encarado com o mais profundo desprezo pelas pessoas do futebol. Com um total sentido de irresponsabilidade.
15.Agora que o campeonato vai acabar – e segundo os timings declarados por Maria José Morgado – espera-se que o ‘Apito Dourado’ conheça os desenvolvimentos necessários.
16.A Justiça já está suficientemente descredibilizada para aguentar mais um flop do tipo Casa Pia.
17.Ninguém tem dúvidas de que houve influências junto dos árbitros e de quem os nomeava para extrair benefícios do ponto de vista da adulteração de resultados.
18.Quem promoveu este tipo de ‘actividade’, não pode ficar impune.
19.O ‘Apito Dourado’ não é (não deve ser visto como) uma contenda entre FC Porto e o Benfica.
20.O ‘Apito Dourado’ marcará, ou não, um novo tempo no futebol. Está em causa a dissuasão de práticas (ilícitas) que se tornaram comuns e se banalizaram na bola indígena.
21.Também Saldanha Sanches, competente e reputado fiscalista com um olhar muito crítico sobre as ‘economias paralelas’, veio falar nos ‘dinheiros sujos’ que circulam no financiamento dos partidos.
22.Acedeu a ser o mandatário financeiro da campanha de António Costa para a presidência da CML exactamente para poder controlar algumas iniciativas menos escrupulosas.
23.Maria José Morgado e Saldanha Sanches são um casal com uma vida em comum, mas são acima de tudo um casal emblemático de uma certa forma de estar na sociedade. Com um papel crucial a favor da regeneração possível e contra a degeneração porventura impossível. Mas dão um contributo que deveria ser acompanhado e estimulado.
24.O poder político tem uma grande responsabilidade nos ‘usos e costumes’ dos portugueses. Se não dão o exemplo, que pode exigir? Que pode esperar?
25.Entre os Figos e os Cristianos Ronaldos – os tapetes de seda que nos deslumbram o olhar – existe muita podridão, que é varrida sistematicamente para debaixo dos ditos tapetes.
Nota – Que Maddie seja encontrada sã e salva! Mas é preciso pensar nas crianças que não têm a protecção dos media e que morrem à fome diariamente. Alguém se preocupa com elas?
Nota 1 – Não são saudáveis estas transições do Tribunal Constitucional para a política e, concretamente, para o Governo. Um juiz que defende interesses políticos e partidários, ou outro tipo de interesses (como no futebol), não está a colocar em causa a independência e a isenção, indispensáveis ao exercício das suas funções?
Nota 2 – Um juiz tem o direito de dizer à magistratura: “Esperem aí um bocadinho que eu vou ali fazer uma comissãozinha no Governo ou num órgão jurisdicional de futebol e já volto?!”
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