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Correio da Manhã

Opinião
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8 de Fevereiro de 2004 às 00:00
1 Na sequência dos acontecimentos de Alvalade, o FC Porto cortou relações com o Sporting e mais uma vez, pela ambiguidade das declarações entretanto produzidas e daquilo que vem sendo publicado, percebe-se que por detrás do fel que inunda os territórios de Pinto da Costa e Dias da Cunha podem existir alguns pingos de mel entre pessoas das respectivas sociedades anónimas desportivas, que mantêm a pose institucional e guardam as suas opiniões mais profundas em razão dos erráticos ditames de uma coisa muito pomposa chamada solidariedade.
José Eduardo Bettencourt, que emergiu esta semana como uma voz importante no quadro interno do Sporting, vem mesmo dizer que 'não faz sentido o corte de relações entre as SAD', deixando claro que o entendimento com outras pessoas da administração do Sporting era muito bom e só não continua a sê-lo porque Pinto da Costa não deixa.
Na verdade, é importante não esquecer que, ainda no tempo de José Roquette, a aproximação entre Sporting e FC Porto resultou da constituição de sociedades anónimas desportivas, à frente do Benfica, então liderado por Vale e Azevedo. Mesmo no meio de algumas dúvidas e da utilidade dessa 'aliança', José Roquette fundamentou a aproximação através dos problemas comuns que a constituição dessas sociedades iria suscitar, até do ponto de vista legal, numa situação nova no futebol cá do burgo.
O Sporting, com esta sua visão da falta de sentido do corte de relações entre SAD, em tese absolutamente aceitável, está a querer isolar Pinto da Costa. Mas também é verdade que o futebol português não pode continuar a assistir, periodicamente, a estas, como dizer?, 'zangas de comadres', a partir das quais há sempre uma escapatória para agudizar ou amenizar cíclicos cortes de relações.
Feitas as contas e no meio de tanta falta de coerência, expressa nas declarações produzidas nos últimos dois meses pelos mais altos responsáveis dos três maiores clubes portugueses, Sporting e Benfica estão mais juntos, ficando o FC Porto com a companhia de um Boavista que se lhe chegou, temendo, a certa altura, a força resultante da sua supremacia. Mas também neste quadro o apoio do Boavista ao FC Porto não será totalmente sincero porque, apesar das cambalhotas que os dirigentes continuam a fazer sob o olhar incrédulo da opinião pública, há uma memória viva que nunca se apaga. Os clubes portugueses mais representativos têm motivos de sobra para se sentirem ofendidos e não há nenhum que possa reclamar maior coerência. Estamos, pois, perante alianças mal sustentadas, pífias, frágeis, num jogo de cadeiras que podem mudar de dono a qualquer momento. Não vemos, no futebol profissional em Portugal, nem por iniciativa ou autoridade da FPF; nem por iniciativa ou autoridade da Liga – simplesmente porque não há autoridade – nenhuma política sólida no sentido da agregação dos Clubes ou das SAD em torno da discussão e da defesa dos seus interesses. E isso é o mais negativo, com Euro’2004 ou sem Euro’2004.
Que se pode esperar do futuro do futebol em Portugal quando, a pouco mais de 100 dias do Euro’2004, os principais dirigentes da bola indígena parecem dispostos a rebentar, como 'homens-bomba', nos territórios ocupados da incoerência e da venalidade?
2 José Mourinho estava a marcar muitos pontos junto da opinião pública, não só pela qualidade do seu trabalho, absolutamente visível e reconhecida, mas também por ser capaz de dizer algumas coisas fora do âmbito daquele discurso redondo, previsível, banal que faz parte do chamado 'futebolês'.
Mourinho chegou a Alvalade com um saldo impressionante de 35 jogos consecutivos sem registar qualquer derrota em competições nacionais; nesse arco temporal, isto é, entre 11 de Maio de 2003 e 24 de Janeiro de 2004, perdeu duas partidas – com o Milan (Supertaça Europeia) e Real Madrid (Liga dos Campeões) e nos últimos oito encontros só tinha somado vitórias.
Enquanto treinador em Portugal, considerando o seu desempenho no escalão principal do futebol nacional, Mourinho chegou a Alvalade com um total de 96 jogos, 68 vitórias, 19 empates e apenas 9 derrotas.
Enquanto treinador do FC Porto, e no mesmo âmbito, Mourinho chegou a Alvalade com 68 jogos, 54 vitórias, 10 empates e 4 derrotas.
Um palmarés excelente, do qual ressaltam conquistas em quatro competições distintas: Taça UEFA (1), SuperLiga (1), Taça de Portugal (1) e Supertaça 'Cândido de Oliveira' (1).
Ao cabo de 20 jornadas da prova mais importante do calendário indígena, isto é, no momento em que Mourinho verificou que não teve capacidade para ganhar em Alvalade, estabeleceu-se uma diferença perturbante para o período homólogo da época passada. É que a tranquilidade em 2003 representava 13 pontos de diferença para o segundo classificado; essa 'tranquilidade', este ano, expressava 'apenas' 5 pontos para o Sporting (que são 6, em caso de igualdade pontual) sob a influência da proximidade dos jogos com o Benfica e do Manchester United, com a partida em Vila do Conde para a Taça a meio da próxima semana.
O FC Porto vive, nervosamente, o dilema da separação natural entre Pinto da Costa e José Mourinho, que vai ter de acontecer um dia, mesmo que não seja no final da época.
O comportamento de Mourinho em Alvalade só beneficiou Pinto da Costa, no sentido de criar condições psicológicas para o segurar. Neste momento, a bola está do lado de Mourinho. Ou faz um 'mea culpa' e parte; ou faz um 'mea culpa' e fica ou não faz qualquer tipo de 'mea culpa' e fica prisioneiro do seu 'umbiguismo'.
Os leitores permitem-me, certamente, que lhe dirija estas palavras: nós gostamos de si; você é que nos está a obrigar, cruelmente, a deixar de gostar.
NOTA - É pena que o Estado também não seja coerente nas suas 'intervenções' perante o futebol. Se o adversário do V. Guimarães não tivesse sido o Boavista mas outro qualquer as reacções 'políticas' e 'associativas' seriam tão espontâneas e céleres como efectivamente foram?
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