Barra Cofina

Correio da Manhã

Opinião
9
23 de Agosto de 2004 às 00:00
O Estádio Olímpico de Atenas é tão bonito como a Estação do Oriente de Lisboa. Com uma vantagem: os atletas não são empurrados pelo vento como os pobres dos passageiros que esperam o comboio Alfa. Autor das duas obras, Santiago Calatrava melhorou de Lisboa para Atenas. Isso significa que o anseio olímpico, fazer cada vez melhor, também é praticado pelos arquitectos.
Fazer melhor – isso é o melhor dos Jogos Olímpicos, torna-os uma escola de virtudes. Também posso enveredar pelo cinismo em relação ao olimpismo. Que sim, a procura da melhoria do corpo é, por vezes, um contrato com o Diabo, através do ‘doping’. Mas resta o esforço pessoal pela melhoria (esta ou aquela: por maior rapidez, maior salto...) da maioria dos atletas. E isso, apesar de todos os poréns, é absolutamente admirável.
Quem escreve esta crónica é um homem fascinado por ter estado, no sábado, no Estádio Olímpico de Atenas. Escolho esse dia, como podia escolher outro, ou outro estádio – a dois passos, por exemplo, vira antes Phelps, Thorpe e Van den Hoogenband, num 100 metros livres de natação que me levou ao topo do mundo, como se tivesse estado no Scala de Milão a ouvir os Três Tenores.
E, desse sábado, podia escolher uma dezena de momentos que me empolgaram. Na terceira e última eliminatória dos 400 metros, o jamaicano de bigodinho Brandon Simpson foi relegado para a pista 9, estava longe de ser favorito. Numa das pistas do meio, a 5, o americano Otis Harris: estava ali para fazer da corrida um barco veloz, com ele em cunha, ganhando como nas duas precedentes eliminatórias os americanos ganharam.
As corridas de 400 metros têm a mania de serem as perfeitas: são as últimas da velocidade pura e as primeiras da resistência. E, além disso, casam na perfeição com os estádios, marcam uma volta inteira à arena. Naquela eliminatória, já sobre a recta da meta, o jamaicano Simpson ia na quinta posição. Começou a varrer adversários – quarto, terceiro... Sobre a meta, o americano, que até então ia de mãos em cutelo, abrindo caminho, viu que o seu maior adversário, na pista 6, estava batido: fechou as mãos, fê-las punhos, porque a corrida estava no papo. Erro fatal, o jamaicano de bigodinho, escondido pelo da pista 6, passou este, ficou em segundo, fez o esforço final e cortou a meta em primeiro. O pobre Otis Harris, que tinha bombeado o peito em vencedor, abanava a cabeça, não acreditando no que o placard electrónico dizia.
Quantas lições para uma simples corrida de 44 segundos... Como seria possível numa escola, passando o vídeo desta fantástica corrida, pôr os miúdos interessados nas virtudes da persistência e no erro de acreditar no ovo no cu da galinha. Não chegava para dar campeões olímpicos, pois não, mas ajudava a fazer, por exemplo, um bom torneiro mecânico.
Ver comentários
Newsletter Diária Resumo das principais notícias do dia, de Portugal e do Mundo. (Enviada diariamente, às 9h e às 18h)