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Correio da Manhã

Opinião
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Piloto morre em corrida de motos no Estoril

Armando Esteves Pereira

Os números também mentem

Orçamento de um Estado gordo, viciado em gastos, que anuncia dieta e corta calorias na Função Pública.

Armando Esteves Pereira(armandoestevespereira@cmjornal.pt) 5 de Novembro de 2006 às 00:00
Os portugueses já estão fartos de ouvir a lengalenga do défice, dos sacrifícios. Já vem de há dez anos, quando o País rumava para a moeda única e era preciso cumprir os famosos critérios do défice que obrigavam a um défice abaixo dos 3% do PIB, a um endividamento abaixo de 60% da riqueza.
Na altura as metas foram cumpridas pelo ministro Sousa Franco facilmente. E essa facilidade acabou por ser nefasta. A descida abrupta e histórica do preço do dinheiro ajudou a reduzir o défice. A privatização das principais empresas, com destaque para a Banca, seguros e EDP, ajudou a cumprir a meta do endividamento.
E quando os objectivos foram cumpridos, em vez de aproveitarem a bonança para melhorar a eficácia do Estado, os responsáveis políticos preferiram nada fazer, deixaram o Estado engordar. As famílias também aproveitaram a baixa dos juros, a principal prenda da entrada no Euro, para se endividarem. E o País da poupança começou a gastar dinheiro emprestado em casas, carros, férias. Portugal passou a consumir como os ricos. O problema é que continuou a produzir pouco.
E se a entrada no Euro deu o dinheiro barato também acabou com os truques artificiais, como a desvalorização da moeda que permitia às exportações portuguesas serem baratas e competitivas no estrangeiro e às importações serem caras em Portugal.
Essa euforia tinha de acabar necessariamente mal e aconteceu a desistência de Guterres por causa do famoso pântano. 2001 foi mesmo o ano de viragem, o ano em que o País começou a pagar a factura dessa irresponsabilidade. A seguir veio a austeridade de Manuela Ferreira Leite e os meses de Santana Lopes, que também decretou o fim da crise.
As medidas de Ferreira Leite estancaram o problema, mas não o resolveram. O Governo de Sócrates segue a linha de Ferreira Leite, aperta nos funcionários públicos, aumenta impostos, mas os gastos do Estado ainda representam este ano mais de 46% do PIB.
CHOQUE ELÉCTRICO
Após a entrada no Euro, o País perdeu ritmo, atrasou-se na produção de riqueza. A cumulação de défices do Estado traduz-se num aumento do endividamento. Em 2005 a dívida pública somava 94,3 mil milhões de euros. No próximo ano chegará aos 108,5 mil milhões, mais de 10 800 euros por cada cidadão residente. E agora em vez de baixar, os juros vão subir, o Estado já não tem assim tantas empresas apetecidas para privatizar.
O Estado português há dez anos era como aquelas famílias com bens que foram obrigadas a vender jóias para equilibrar as contas. Em vez de terem cuidado, agravaram os gastos e agora, desperdiçadas todas as oportunidades, estão com problemas maiores e com menos bens.
A redução dos gastos é obrigatória, mas tem custos, e por isso se vão ouvir tantos coros de protestos. E se em teoria todos concordam que o Estado terá de gastar menos dinheiro, quando esse princípio afecta directamente o próprio bolso ou as expectativas de carreira a conversa é bem diferente.
LIBERALIZAÇÃO MALTRATADA
João Proença, da UGT, acusou o Governo de se enganar deliberadamente na inflação. Para 2006, as metas eram 2,6% e o número final será próximo de 3%. No próximo ano, provavelmente os preços voltarão a subir mais do que a meta oficial de 2,1%.
ONDA INFLACIONISTA
Além de controlar a evolução salarial com expectativas de evoluções de preços mais baixas que a realidade e como as actualizações dos escalões do IRS têm sido feitas de acordo com a previsão para o indicador oficial, a subida de preços também representa um aumento de impostos sobre a economia.
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