Barra Cofina

Correio da Manhã

Opinião
9
16 de Março de 2005 às 17:00
Cinquenta milhões de crianças vivem em estado de pobreza nos (assim chamados) países desenvolvidos.
De acordo com a UNICEF, a pobreza infantil tem vindo a crescer nos países mais ricos: das vinte e quatro nações mais ricas do Mundo, 17 são “responsáveis” por estes índices de pobreza.
Conhecem-se as razões de queixa que os países mais pobres têm relativamente aos mais ricos, a quem acusam de impor regras injustas no plano do comércio e do desenvolvimento. Tais razões de queixas servem de pretexto para certos movimentos extremistas, de carácter político ou religioso, justificarem as suas actividades.
Mas estes números divulgados pela UNICEF retratam a pobreza como uma realidade indesmentível também entre os países mais desenvolvidos. As injustiças que contribuem para a pobreza não são, assim, monopólio de ninguém: atacam e condicionam a vida de muita gente, em diferentes pontos geográficos e em diversos ambientes culturais, sociais e políticos.
A pobreza infantil, nos países mais ricos, está também relacionada com políticas sociais que não olham a família como algo de insubstituível que é necessário proteger. O enfraquecimento da família, tantas vezes encorajado pelo Estado, acaba por ter consequências impressionantes na subida dos níveis de pobreza entre os mais jovens.
Por isso, as questões da Justiça, da pobreza e da família nunca podem ser esquecidas pelas sociedades e devem constituir prioridade para os governos.
Claro que nos debates políticos, a pobreza, em geral, raramente tem voz. Os sindicatos, por exemplo, há muito que deixaram de ser voz dos mais pobres (“os que não têm”) contentando-se, frequentemente, em defenderem os menos pobres (“os que já têm”).
Nas sociedades democráticas, a obtenção de benefícios sociais e económicos está directamente associada à capacidade reivindicativa. Acontece que os mais pobres (particularmente, os mais novos) têm pouca expressão no debate social e, em geral, não dispõem de meios de pressão sobre os governos. A sua causa (que deveria ser a nossa) fica dependente de convicções fortes que surjam na sociedade com consequências na orientação política do país.
Só políticos de convicções profundas conseguirão impor políticas capazes de beneficiar os socialmente mais silenciosos, mesmo que em detrimento dos mais ruidosos, no plano sócio-reivindicativo.
O programa do novo Governo deve ficar concluído amanhã. Entre outros pontos, vale a pena perceber até que ponto as preocupações sociais se encontram traduzidas em propostas não apenas assistenciais, mas, sobretudo, geradoras de desenvolvimento social e de promoção familiar e humana dos mais fracos e desprotegidos.
Ver comentários
Newsletter Diária Resumo das principais notícias do dia, de Portugal e do Mundo. (Enviada diariamente, às 9h e às 18h)