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Correio da Manhã

Opinião
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Francisco Moita Flores

Os telemóveis

O julgamento Casa Pia está neste momento a ser dominado pelos interrogatórios, dúvidas e esclarecimentos em torno dos telemóveis de Carlos Silvino e sobre os telefonemas que recebeu de Manuel Abrantes.

Francisco Moita Flores 2 de Fevereiro de 2005 às 00:00
É irrelevante para esta crónica se eram muitos ou poucos telefonemas. O que a acusação procura com a insistência nesta matéria é demonstrar um vínculo muito especial entre os dois arguidos. Vínculo que embora não prove os actos criminais de que é acusado, tem como finalidade criar a convicção no colectivo de que existe uma relação especial entre ambos, pese o facto de não ser citado por ‘Bibi’ na sua confissão de ‘forrobodó’.
É este um dos problemas mais bicudos que a defesa vai enfrentar. A falta de prova, ou a prova insuficiente, obriga a estratégias deste tipo onde a acusação tem de se colocar numa posição, também para si ingrata, que é de procurar formular convicções em vez de arrumar de vez o interrogatório com a exposição de factos irrefutáveis.
Ora não teria sido difícil, caso esses telefonemas correspondam a factos criminosos, perceber o grau de cumplicidade(?) entre os dois homens se a investigação tivesse apostado no tempo, na paciência em vez da precipitação. Parece que a prisão de Manuel Abrantes deu boas notícias de primeira página mas terá retirado eficácia ao objectivo final da captura. Se tivesse sido escolhida outra estratégia, como por exemplo criar um acto inquietante (chamá-lo para uma breve conversa) e a seguir seguir-lhe telefonemas e passos, conversas e encontros, possivelmente a prova seria mais sólida do que confissões e quantidades de telefonemas ou, visto de outro ângulo, concluir-se da inocência que ele reclama.
É certo que ainda falta muito caminho para andar. Mas este primeiro embate revela que a defesa não pode refugiar-se num argumento que é simples, e até razoável, expresso na fórmula ‘não me lembro!’. Basta fazer o exercício para ser razoável a qualquer cidadão não se recordar nem o número de chamadas nem o que disse há dois anos a determinado indivíduo. Mas nas circunstâncias em que se desenvolve a produção de prova, mais apontada à convicção do que à exuberância dos factos, qualquer ‘não me lembro!’ pode ser entendido como uma fuga à verdade. E um bom somatório de ‘não me lembro!’ também não é sinal apenas de falta de memória. Embora seja sinal, não seja prova.
Moita Flores escreve sobre o processo Casa Pia aos sábados e quartas-feiras
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