Os velhos

Rui Pereira

Os velhos

A família, a comunidade e o Estado devem assumir a missão de apoiar as pessoas mais vulneráveis.
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Por Rui Pereira|02.02.12
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Os velhos

Soubemos, pela comunicação social, que foram encontrados os corpos em decomposição de mais quatro pessoas idosas nas suas residências. Desde o início do ano, foram descobertas doze pessoas, dias, semanas ou até meses depois de terem morrido, no recolhimento da sua solidão. Ninguém – familiares, amigos ou vizinhos – deu rapidamente pela sua falta. Na verdade, elas já tinham morrido há muito tempo. A sua morte social precedeu a morte biológica, provando a verdade da afirmação de Gabriel Garcia Márquez: "A solidão é o contrário da solidariedade."

Num conto magistral, ‘Tlön, Uqbar, Orbis Tertius’, Jorge Luís Borges, outro grande escritor sul-americano, ficciona um universo imaginário, governado por um princípio filosófico idealista, em que as coisas de que nos esquecemos desaparecem e, em contrapartida, nascem as coisas com que nós sonhamos. Assim é o nosso mundo actual: esquecemo-nos dos nossos velhos, familiares e amigos, condenando-os, por vezes, a uma morte pela solidão, e damos vida aos produtos da celebrada civilização do "ter", com o nosso consumismo desenfreado e irracional.

Estas mortes tristes, silenciosas e envergonhadas são um duro libelo acusatório contra a nossa civilização e o seu "admirável mundo novo". É certo que a esperança média de vida aumentou cerca de doze anos desde a década de 70, o que, a par da queda drástica da natalidade, contribuiu para que a percentagem de pessoas idosas crescesse de 9,7, nessa época, para 16,4 em 2001, de acordo com o último censo. Porém, é incoerente e até mesmo perverso aumentar a esperança de vida se não soubermos proporcionar uma existência condigna às pessoas idosas.

Inscrever o direito à felicidade na Constituição será inconsequente, mas a família, a comunidade e o Estado têm de assumir a missão de apoiar as pessoas mais vulneráveis e solitárias. Os organismos públicos e as organizações não governamentais (através da nobre instituição do voluntariado) têm um papel a desempenhar. Não se trata, somente, de garantir a segurança dessas pessoas, como se procura fazer através dos programas ‘Escola Segura’ ou ‘Idosos em Segurança’, mas de evitar a morte pelo esquecimento. Em nome da dignidade da pessoa humana.

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