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Correio da Manhã

Opinião
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16 de Fevereiro de 2007 às 09:00
Eufóricos agnósticos foram ao rubro, nos últimos dias, com uma suposta derrota da Igreja Católica no referendo de domingo. Não entendemos. Não sabemos o que aconteceria se a hierarquia da IC se tivesse empenhado como Sócrates ou Marcelo ou todos os estafados defensores do ‘sim’ e do ‘não’. Estando em todo o lado, 24 horas por dia, a martelar-nos a cabeça com as suas razões. Mas não. De um modo geral a hierarquia católica, recordando os seus valores, guardou uma prudente distância. Não foi a jogo. Inteligentemente. Gostávamos de saber quantos crentes perderam a fé devido ao resultado do referendo e, por isso, deixaram de ser rurais arcaicos, dogmáticos e conservadores e obtiveram o diploma de aprovação no teste do modernismo elegante e desempoeirado!
Metade de metade dos eleitores deu a vitória a um muito pragmático ‘sim’. Vamos, finalmente, ver-nos livres da caricata situação de os tribunais andarem a brincar ao julgamento de abortadores e abortadeiras e de suportar os profissionais da berraria nas suas danças rituais, à frente dos tribunais. Realizou-se o clássico desígnio de alguma coisa mudar para que tudo continue na mesma. Mas poucos se incomodam com isso. Não ficámos aprovados em nenhum “teste civilizacional entre a pré-modernidade ou a modernidade”, como ( anedoticamente) já vimos escrito. Os nossos ‘pensadores’ caseiros não pensam e não ajudam ninguém a pensar. Ninguém lhes conhece uma ideia nova. O seu melhor não vai além de fazer ligeiras e pouco inspiradas variações sobre ideias velhas e importadas. Por isso não foi, nem podia ter sido, feito qualquer teste aos sentimentos profundos dos portugueses ou à sua estrutura ética. Nem demos qualquer salto qualitativo. Este ‘sim’ foi um pequeno ganho imediatista que passou ao lado de quaisquer verdadeiras razões filosóficas ou morais. Fizemos um insignificante mas desejável ajustamento no plano dos nossos desencontros e das nossas contradições. Ganhámos na elimina-ção de ruídos incómodos e (um pouco) na dignificação dos tribunais. As mulheres averbaram um real ganho simbólico. O que é ainda mais de louvar porque com esta dignificação veio também uma especial responsabilização, porque, agora, tudo depende só delas.
Entre os que não resistem a fazer balanços há, agora, os que acreditam na salvação do mundo pela via da vitória do ‘sim’ e os que lucidamente mantêm a ligação à realidade e sabem que os ganhos reais (não simbólicos) são muito poucos. As situações verdadeiramente dramáticas continuarão todas por resolver. Continuará a haver abortos penalizados. Continuará o negócio do aborto clandestino. Recém-nascidos e fetos continuarão a ser atirados para os caixotes do lixo fora dos estabelecimentos legalmente autorizados a fazê-los. Muitos pais biológicos continuarão a desaparecer como fantasmas logo que a grávida lhes comunique a ‘boa-nova’. As famílias continuarão a rejeitar as filhas que engravidaram de pais ‘incómodos’. E o Estado, sempre hipócrita, não garantirá protecção de espécie nenhuma às futuras mães nem aos seu filhos. Sabemos o que a casa gasta. Sem sadismo, e até prova em contrário, apetece-nos dizer que no domingo só houve dois vencedores indiscutíveis. São ‘investidores estrangeiros’ (parabéns Manuel Pinho) e chamam-se Clínica dos Arcos e Clínica Del Bosque…
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