Barra Cofina

Correio da Manhã

Opinião
Piloto morre em corrida de motos no Estoril

Francisco Moita Flores

Outra vez!

A verdade é que estamos a caminhar para uma sociedade marcada pelo regresso dos autos de fé. Pela ausência de escrúpulos (...)

Francisco Moita Flores 7 de Agosto de 2006 às 17:00
O Ministério Público decidiu arquivar o processo contra Luís Nobre Guedes onde era suspeito de tráfico de influências, enquanto era ministro do Ambiente, no projecto Portucale onde se evocou o abate indiscriminado de sobreiros.
A notícia fez manchetes. Dias seguidos de noticiário, nomeadamente com imagens do conhecido advogado acompanhado da polícia nas buscas que então se realizaram. O nome e a figura do ex-governante colocado no frontispício de todas as suspeitas em companhia de uma instituição bancária.
Há algumas semanas também foi notícia o arquivamento do processo que correu contra o ex-presidente da Câmara de Cascais, com forte noticiário militante, onde se adivinhavam, e supunham, as mais negras intenções. Investigado durante quatro anos, o processo acabou em águas de bacalhau e José Luís Judas desapareceu da cena política enxovalhado com o escândalo. Afinal não foi encontrado nenhum acto passível de levá-lo a julgamento e a história judicial morreu.
Passou-se o mesmo com a história da sisa de António Vitorino, a manta de João de Deus Pinheiro, o Apito Dourado, a Universidade Moderna, a Casa Pia, a megaoperação de buscas a instituições bancárias, entre muitos outros casos que agora não vale a pena citar.
Não existe um único caso que tivesse arrancado com grandes parangonas cujo termo não fosse ou o caixote do lixo ou a saída de um ratinho de qualquer das montanhas orquestradas e anunciadas como a prova provada de que o regime está de rastos.
Das duas, uma. Ou o regime está mesmo de rastos e ninguém consegue ser agarrado pelas malhas da Justiça que proclama grandes descobertas, grandes e corajosos ataques contra interesses instalados e depois tudo se desvanece em espuma, ou o regime não está de rastos e aquilo a que vimos assistindo com alguma placidez, benevolência perversa, é à manipulação com agenda marcada de instrumentos judiciários para liquidar na praça pública, sem direito a qualquer tipo de defesa, cidadãos que incomodam, que emergem com maior visibilidade, que agem com maior coragem.
A verdade é que estamos a caminhar para uma sociedade marcada pelo regresso dos autos de fé. Pela ausência de escrúpulos e pelo expediente que nestes julgamentos que mancham a honra e a dignidade de quem assim é executado, se safam aqueles que pelos mais tenebrosos expedientes continuam acima de todas as suspeitas.
É infame este julgamento popular sem recurso ao contraditório que destrói, magoa e mancha e depois num curto comunicado, anos depois, se esclarece que afinal não havia notícia para dar. Foi tudo um mal-entendido. Nem os tribunais plenários de má memória procediam assim.
Esta repetição dos mesmos gestos, dos mesmos processos de intenção, esta construção de escândalos que parece organizada, esta inépcia para apanhar quem transgride, esta chacina sem limites conforme a conveniência, põe o sistema judiciário à beira daquilo que nunca deveria, nem poderia ser num Estado de direito: um mero gestor de vinganças pessoais e políticas. Assim, nada disto faz sentido.
Ver comentários
Newsletter Diária Resumo das principais notícias do dia, de Portugal e do Mundo. (Enviada diariamente, às 9h e às 18h)