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Correio da Manhã

Opinião
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30 de Maio de 2007 às 09:00
Das forças que movimentam a História, o ressentimento não será das menores. O historiador francês Marc Ferro, a abrir o ciclo ‘Estado do Mundo’ da Fundação Gulbekian, relembrava recentemente como muito do que vivemos se explica por este sentimento individual e colectivo, que atravessa séculos e continentes, enquanto força obscura, mas também como produto da História.
Fruto de derrotas, massacres e iniquidades, gera-se a humilhação, particularmente dolorosa para aqueles que passam de dominadores a escravos. É curioso, a este propósito, recuperar a sabedoria milenar chinesa, que defende que “uma vitória não deve ser grande demais”, evitando sempre que possível a humilhação do adversário. Mas raramente os vencedores não cedem à tentação de esmagar o vencido.
Da humilhação nasce o ressentimento, que perdura e impulsiona para o ajuste de contas, de que a vingança é o principal subproduto. Torna-se um veneno que invade toda a existência. Só que, como dizia Shakespeare, guardar ressentimento “é tomar veneno e esperar que a outra pessoa morra”. A vingança nunca é suficiente para o satisfazer.
A obsessão vingativa que medra em ressentimentos antigos torna então o passado mais presente que o próprio presente. Dessa forma se explicam, segundo Ferro, quer a crise actual com os terroristas islamitas, quer outros fenómenos mais antigos, como a ascensão nazi depois da humilhação da I.ª Guerra Mundial e do Tratado de Versailles, bem como a história de uma Polónia sucessivamente invadida e repartida por russos, alemães e suecos.
Mas Marc Ferro não ficou só nas tragédias que o ressentimento gerou ao longo da História. Trouxe também à memória, pelo menos, um milagre. Contra todas as expectativas, a longa história de humilhação que o apartheid havia produzido na África do Sul, com o consequente ressentimento de milhões de negros tratados como sub-humanos, não resultou numa explosão de vingança.
E se ao historiador francês não sobrou tempo para aprofundar o porquê deste milagre, e nele encontrar uma chave de esperança para o Mundo, importa sublinhar que a paz só se poderá construir quando os ofendidos puderem e souberem transformar o seu ressentimento em perdão.
A dinâmica inspirada por Nelson Mandela, um dos homens mais notáveis de sempre, com o apoio de outros ilustres sul-africanos como o Bispo Desmond Tutu, transformou um potencial explosivo de ressentimento à espera de vingança em reconciliação e paz.
Através da Comissão Verdade e Reconciliação, sem esquecer as humilhações, mas ao invés nomeando-as e condenando-as, valorizaram-se os factos, dignificaram-se as vítimas e refez-se a memória colectiva. Mas abriram-se também as portas ao perdão e à reconciliação, com o arrependimento do ofensor. Em defesa de um bem maior, diluíram-se os ressentimentos e deixou-se cair a vingança. Se a Humanidade souber fazer isso mais vezes, talvez encontre um futuro diferente.
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