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Correio da Manhã

Opinião
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27 de Maio de 2004 às 01:11
Quando tudo sai bem, há sempre uma tendência para cientificar até os golpes de sorte. O terreno estava inclinado para a baliza de Baía, o FC Porto não conseguia ligar três passes, adivinhava-se o empate, quando Alenitchev - lançado de fresco na relva - rompe pela esquerda e dá a Deco a oportunidade de mostrar, por uma vez ontem, a classe que nos últimos jogos tem esbanjado. Onde acaba o trabalho metódico, a antevisão de cenários, a preparação integrada dos atletas e começa a sorte? No futebol como em tudo na vida nunca se irá saber. Indiscutível é que ninguém ganha tantas vezes como este FC Porto de Mourinho sem que estejam reunidas uma série de circunstâncias que vão depois atrair a sorte - essa donzela ainda mais cega que a justiça e que teima em pousar nos braços de quem a busca com intensidade, método, confiança e pensamento positivo. Tudo isto Mourinho faz hoje como ninguém no futebol e como muito pouca gente em Portugal. O exemplo de Mourinho é hoje, num nível mais complexo, digno sucessor daquele que Luís Figo cimentou durante uma década. Ficando apenas pelo futebol - embora nunca seja de mais sublinhar que se podem fazer analogias com outras áreas de competição mais estritamente económicas - não podia ter chegado em melhor momento este êxito do mui nobre FC Porto. Em Óbidos, os restantes componentes da selecção portuguesa viram hoje, caso fosse necessário, como é possível ser campeão europeu. Como pode ser fácil vencer quando um homem convence um grupo - ou, no limite, impõe - de que só se pode vencer quando cada um deixa cair uma parcela do seu ego para que o puzzle possa resultar harmonioso. Por isso Deco defende em arriscados carrinhos, Ricardo Carvalho pode subir sem olhar para trás, e Costinha adivinha mais dificuldades do próximo do que um monge franciscano. A lição está dada. Cabe segui-la sem medos nem mesquinhez desde o primeiro jogo do Euro.
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