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Correio da Manhã

Opinião
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10 de Maio de 2009 às 00:30

Jon Meacham, o director da ‘Newsweek’, disse que "um cronista é como um convidado fixo para jantar. Às vezes, é a pessoa mais encantadora; às vezes, se enfrasca e vomita em cima da gente". À centésima, habituei-me à ideia de ser a quarta dose de whisky oferecida pelo ‘Correio da Manhã’ – aquela que, ocasionalmente, faz vir à tona o jantar saboreado nas demais páginas do jornal. Claro, esta crónica aumentou a minha notoriedade – mas a celebridade de um escritor é uma coisa muito peculiar. Exemplo? Há uns meses fui cortar o cabelo. O cabeleireiro virou-se para a manicura: "Este gajo é famoso!" Fiz uma careta (sabia que aquilo não ia acabar bem). A jovem mediu-me e encolheu os ombros. O rapaz teimou: "É um escritor famoso!" Ela revirou os olhos: "Nunca ouvi falar." O cabeleireiro gemeu: "Eu nem te disse o nome dele!" Ela encerrou o assunto: "Mas não se pode dizer que seja a Júlia Pinheiro, pois não?" Percebem? Qualquer reconhecimento que um tipo possa receber como escritor não é o que a maioria das pessoas vê como fama verdadeira – ou mesmo falsa. É uma espécie anónima de fama (tipo o Soldado Desconhecido). Apesar de – como entretenimento – ilusória por definição, só a TV confere "autenticidade".

Nos últimos tempos, aconteceu algo ainda mais insólito: praticamente toda a gente que trabalha na TV desatou a escrever romances. Desconfio que se tornou, virtualmente, uma obrigação contratual, de maquilhadores a operadores de câmara, de estafetas a directores de programação. Ser funcionário da televisão e não publicar um livro dá direito a processo disciplinar e demissão por justa causa. Bom, quem sou eu para criticar?

Os eventuais leitores desta coluna já devem ter notado que não sei quase nada sobre quase tudo. Mas isto juro: mesmo que por vezes pareça mordaz, tento ser construtivo. É verdade que ninguém aprecia tanto uma crítica construtiva como quem a faz. Dane-se: nada do que foi dito sobre a TV é inteiramente verdadeiro ou inteiramente falso – assim como sobre qualquer outra coisa na vida. Para aqueles que ficaram chateados comigo, repito humildemente o que já reconheci uma vez: posso ter os meus defeitos, mas errar não é um deles. Vemo-nos na 101ª (espero).

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