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Francisco Moita Flores

Paris está a arder

A onda de levantamento insurreccional que alastra a toda a França pode ser o princípio de um rastilho que pode explodir e produzir efeitos em vários países do espaço europeu.

Francisco Moita Flores 7 de Novembro de 2005 às 17:00
Ao olharmos para aquilo que neste momento se está a passar em França, sobretudo em Paris e noutros grandes centros urbanos, não vale a pena utilizar eufemismos. Não são meros distúrbios provocados por jovens. Não é um mero tumulto. Estamos perante um movimento desorganizado, sem direcção, sem planificação mas que não deixa de ser uma verdadeira insurreição contra a ordem política francesa que as ambições pessoais de Nicolas Sarkozy, actual ministro do Interior, exacerbou ao tratar de ‘escumalha’ os primeiros insurrectos.
A onda de levantamento insurreccional que alastra a toda a França pode ser o princípio de um rastilho que pode explodir e produzir efeitos em vários países do espaço europeu, desde a Itália, passando por Espanha e não sendo de admirar que chegue a Portugal. Não é apenas uma crise social resultante de processos de exclusão de minorias no que respeita ao desemprego. Nem tão pouco uma rebelião determinada por eventuais abusos de autoridade face a actos de delinquência. A violência que alastra por toda a França, e particularmente em redor de Paris, é a emergência da revolta de marginais, mas também de excluídos oriundos dos países de onde sempre foi importada a mão-de-obra barata que fornece o trabalho indiferenciado e de menores rendimentos. A fúria desta juventude de emprego precário, ou desempregada, que sobrevive através da actividade criminosa, especialmente do tráfico de droga, que assalta, que rouba e que depois se manifesta da forma como temos assistido ao longo de toda a semana nada tem a ver com os movimentos de protesto que há quarenta anos atrás tiveram a sua eclosão mais visível no Maio de 68.
Aquilo que agora se assiste não tem direcção política, não reclama ideologicamente uma sociedade ou um regime alternativo, não se funda em doutrinas ou teorias mais ou menos revolucionárias e de ruptura face às políticas restritivas, de cariz económico, lançadas pelo governo francês.
Estamos a assistir à reclamação da anomia, da desordem, de bandos sem esperança nem sonhos, espoliados de todas as expectativas. Não são revolucionários. São revoltados. Não são sonhadores. São rapazes com sonhos destruídos. Não reclamam justiça, apenas a odeiam. E esta factura, mais pesada em cada dia que passa, é a evidência de que o economicismo, as lógicas de crescimento e de afirmação económica que produzem mais pobres, mais excluídos, mais marginais, mais delinquentes são a faca de dois gumes, que pode salvar as finanças dos respectivos Estados mas também pode provocar a explosão descontrolada da ira sem direcção nem sentido tendo apenas o ódio como fonte de determinação.
Era bom que todos os governos reflectissem no exemplo francês. Nomeadamente o Governo português. A obsessão do défice, a perseguição fiscal, laboral, às empresas, aos utentes das unidades de saúde, à escola, em nome de contas públicas, ainda por cima mal explicadas, pode descambar nos campos de batalha em que se tornaram agora muitas ruas de França. Quando todos os limites se ultrapassam a violência do ódio surge como a resposta que não se esperava à crise que comanda os nossos destinos.
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