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Correio da Manhã

Opinião
16 de Maio de 2005 às 17:00
Contaram-me a anedota há mais de 15 dias. Ela é, pois, anterior às notícias que entretanto surgiram sobre desventuras de ex-ministros, assunto de que aqui não falo. Passo à anedota:
“Um ministro português recebeu, em Lisboa, um ministro angolano. Simpático, o ministro português convidou o outro a ir lá a casa. O ministro angolano foi e ficou espantado com a bela vivenda. Em bairro chiquérrimo e com piscina. Com o informalismo dos luandenses pôs-se a fazer perguntas.
– Com um ordenado que não chega a mil contos limpos, como é que o meu amigo conseguiu tudo isto? Não me diga que era rico antes de ir para o Governo?
O ministro português sorriu, disse que não, antes não era rico. E em jeito de quem quer dar explicações, convidou o outro a ir até à janela.
– Está a ver aquela auto-estrada?
– Sim – respondeu o angolano.
– Pois ela foi adjudicada por 100 milhões. Mas, na verdade, só custou 90... – disse o português, piscando o olho.
Semanas depois, o ministro português foi de viagem a Luanda. O angolano quis retribuir a simpatia e convidou-o a ir lá a casa. Era um palácio, com varandas viradas para o pôr-do-Sol do Mussulo, jardins japoneses e piscinas em cascata. O português nem queria acreditar, gaguejou perguntas sobre como era possível um homem público ter uma mansão daquelas. O angolano levou-o à janela.
– Está a ver aquela auto-estrada?
– Não.
– Pois.”
Fim da anedota que já tem mais de duas semanas. Contei-a a 12 amigos e só um me disse: “Já acabou? O angolano disse ‘pois’ e acabou a anedota? Não percebi...” Eu sorri, armado em superior. Todos os outros 11, tal como eu próprio, rimo-nos à primeira, para logo comentarmos sobre essa tragédia angolana que é a corrupção desbragada. Por essa altura, eu pensava que tinha um amigo um pouco tosco mas, felizmente, todos os demais, tal como eu, muito espertinhos.
Mas, não sei bem porquê, tenho a sensação que me querem fazer passar por tão estúpido como o outro que não entendeu a anedota. É que, ouvindo os debates e lendo os jornais, passa a ideia que os nossos governantes desonestos, a havê-los, não gamariam nunca para eles, mas fazem, isso sim, tráfico de influência para financiar o seu partido. Sendo os partidos necessários para a democracia, o que fazem os corruptos é feio, mas não se pode dizer que seja egoísta.
Financiar ilegalmente o partido seria, contas feitas, quase um acto altruísta. Um ministro corrupto compromete-se, arrisca até a prisão, mas nunca é para benefício próprio. É para que o seu partido possa comprar mais bandeirinhas para as campanhas eleitorais. Num mundo tão individualista, é quase enternecedor ver o que pode fazer um ministro português corrupto em prol do seu partido. Ele rouba mas só para o colectivo e nunca sem fortes motivações ideológicas.
Se for assim talvez até nem me importe. O problema é que fico desconfiado quando ex-ministros com piscina conheço muitos, mas sede de partido com piscina, nenhuma.
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