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Correio da Manhã

Opinião
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27 de Maio de 2012 às 01:00

Tu-cá-tu-lá, telefona-lhes e atende-os a toda a hora. Hoje, política e jornalismo são mais profissionais e competitivos. E com telemóveis, SMS, tweets, blogues e Facebook, o excesso e a informalidade de comunicação contêm em si possibilidades imprevisíveis. Relvas foi vítima do seu próprio modelo promíscuo de ligação aos media.

No caso Público, o ministro não só agiu muito mal, mas contra o próprio governo. Pôs em causa a política expressa por Passos de não pressionar os media. Pelo que é público, só Relvas contrariou essa política, ao escolher a ERC, ao organizar o Prós & Prós da RTP em Luanda, ao impor um seu lugar-tenente à RTP como "director-geral", ao intervir na contratação de Futre pela RTP e neste caso.

Como o PS (incluindo Santos Silva, adjunto de Sócrates para a censura e pressões sobre os jornalistas) tem a lata de se indignar com o que ministro fez, tendo o governo anterior nesta matéria um palmarés mil vezes pior, Relvas preferiu falar, não no parlamento, mas no seu refúgio: a ERC, onde fazem maioria os três elementos que o próprio Relvas escolheu pessoalmente.

A ERC poderá optar por uma decisão "sim e não" como no caso Rosa Mendes. O "nim" safará o ministro no caso, mas não o salva politicamente. A dimensão política do caso marcará Relvas e cria uma fricção permanente à imagem pública do governo. A inépcia de Relvas obrigou Passos Coelho a falar duas vezes sobre o assunto. E Relvas já evitou duas idas ao parlamento. Está prisioneiro de si mesmo.

Notícias publicadas implicam-no em relações estranhas com maçons, angolanos e o grupo empresarial Ongoing. Não agiu como ministro do governo da nação. A privatização dum canal da RTP, que em Passos Coelho parece resultar de opção ideológica absolutamente razoável, transformou-se, nas mãos de Relvas, ministro da tutela, num jogo que apontou para favorecer a Ongoing e/ou interesses angolanos.

Mais grave que tudo é a sua ligação aos abjectos "secretas" que fazem PIDE para Sócrates ou para qualquer outro no poder. Escrevi há duas semanas o que ninguém ousara: os nossos serviços secretos foram usados como uma PIDE. Balsemão disse-o ontem sobre a "ficha" que os novos pides dele fizeram. Pelo seu percurso "político", Relvas teria de chegar aqui: ao que se esconde sob o relvado. Veremos se Passos opta por Relvas ou se age politicamente, cortando a direito.


A VER VAMOS

REPORTAGEM INVESTIGADA E SEM OS HABITUAIS EXAGEROS DE COMUNICAÇÃO

A reportagem de Nuno Luz na SIC sobre o empresário futebolístico Jorge Mendes foi um excelente trabalho profissional. Resultou dum empenho demorado raro na investigação jornalística de TV: demorou mais de seis meses a reunir depoimentos de protagonistas, alguns de topo na cena mundial. Ouviu treinadores, jogadores, amigos de infância, colegas, colaboradores. Entrou na intimidade profissional e familiar do agente. Mostrou como se fazem os negócios no futebol. Deixou claro o que distingue Mendes e as razões do seu êxito. Além disso, o repórter não aproveitou para brilhar no ecrã, como fazem tantos outros, e o tom da reportagem foi moderado, sem puxar para o melodrama ou para a piada, como é também tão frequente.

JÁ AGORA

EUROFESTIVAL: AS DUAS DITADURAS

A RTP optou de novo pelo "pimba cultural" para mandar ao Eurofestival. Este ano até mudou regras para vedar o regresso dos Homens da Luta, que engoliu em 2011. Lá foi perder ao Azerbeijão, onde passaram os maiores horrores da "Europa" musical. Uma ditadura cultural em impressionante cenário visual. Sobre a ditadura política e a corrupção no Azerbeijão a RTP nada diz.

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