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Correio da Manhã

Opinião
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18 de Setembro de 2004 às 00:00
O Governo de Pedro Santana Lopes tem protagonizado incidentes e tropeções de grande gravidade que não se esperariam em tão curto espaço de actuação. O mais grave de todos envolveu o primeiro-ministro, e os ministros das Actividades Económicas e do Ambiente.
A gravidade é tal que não entendo como o ministro do Ambiente, Luís Nobre Guedes, se mantém em funções. Nobre Guedes foi publicamente desautorizado quando se anuncia que o dossier Galp lhe foi retirado e entregue a Álvaro Barreto. Nobre Guedes foi publicamente humilhado quando Álvaro Barreto, nos Açores, o classificou de “irresponsável” e “inconsequente”.
Analisando friamente a situação, parece-me inquestionável que Nobre Guedes agiu no âmbito estrito das suas competências. Um ministro não é um pau mandado. A matéria em questão confere integralmente com as responsabilidades de qualquer ministro do Ambiente. O acidente na Galp, em Matosinhos, foi suficientemente preocupante para ser metido na gaveta. A divulgação das conclusões do inquérito é um acto a que nenhum ministro se devia furtar.
Ouvindo Álvaro Barreto fica-se com a sensação de que o Conselho de Ministros é uma espécie de turma escolar e cada ministro um aluno que só faz o que o professor manda. É aceitável uma estratégia geral do Governo. Mas não se entende como pode um ministro governar se, em relação às suas competências estritas, tiver que pedir autorização para agir. Um ministro não é um pau mandado. O exercício das suas funções, com sentido de Estado, implica não ser desautorizado e muito menos repreendido publicamente. Um dia destes temos ministros com orelhas de burro ao fundo da sala.
O que não se entende em todo este processo é a falta de coragem de Luís Nobre Guedes para sair e bater com a porta. É completamente óbvio que não dispõe agora da confiança política para continuar a exercer o lugar de ministro do Ambiente. Quem garante que o próximo relatório (é tudo o que podem fazer pelo ambiente – uns relatórios que criam doutrina) não lhe saltará também das mãos por ser “inconveniente” a sua divulgação e entregue, por exemplo, ao ministro da Administração Interna? Quem assegura que não sofrerá mais ralhetes na praça pública? Quando se quebram regras de solidariedade e se atinge a dignidade que é necessária para se ser ministro não há volta a dar – resta apenas a demissão.
Os esforços do PP, emitindo comunicados de solidariedade com o ministro, tornam a paisagem mais desoladora. Fica-se com pena de Luís Nobre Guedes, porque está a engolir elefantes. Em silêncio. E não há comunicados que lhe valham.
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