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Correio da Manhã

Opinião
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7 de Março de 2003 às 01:28
1. Aparentemente, os problemas da Igreja Católica com a crise de vocações e os rebanhos tresmalhados estão perto da resolução (não a da ONU). Para tal, bastaram umas vigílias pela "paz" e algumas posições avulsas contra os Estados Unidos. Quem diria? Se o Vaticano tivesse descoberto o remédio mais cedo, inúmeros católicos haveriam sido poupados à humilhação dos padres cantores, tentativa pindérica de cativar devotos e concorrer, em vão, com as seitas evangélicas.

Mas antes tarde do que nunca. E dá gosto ver os desiludidos dos anos 60 regressar ao templo da ortodoxia romana, de mão dada com marxistas de berço, enfim alinhados na verdadeira fé. Bom, "fé" é excessivo. Mas impressiona enumerar as minuciosas citações das intervenções do Papa e subordinados, de cada vez que a questão do Iraque é abordada.

É verdade que o discurso oficial católico não é unívoco. Nem ataca abertamente os EUA. Mas, na sua essência, condena invariavelmente a "guerra, todas as guerras", e esta condenação, assim expressa sem condições, é um infeliz afago aos valores que a guerra em causa se propõe combater – e a rejeição cabal dos valores contrários. Nada de novo: a doutrina católica hostiliza os EUA porque, sob a cosmética, sempre recusou o capitalismo "voraz" e a modernidade, que a América hoje simboliza. Nesse curioso nicho de pensamento, estava escrito que, um dia, Igreja e esquerda teriam de se unir.

Sobra, porém, um problema, já que a lucidez permite duvidar seriamente da real fidelidade dos pretensos adeptos. Convém não esquecer que, há curtos meses, os papistas de última hora viam em João Paulo II a representação terrena do "pior conservadorismo", para usar uma expressão recorrente. Quando o assunto envolvia o comunismo, na década de oitenta, ou, depois, as matérias "fracturantes" (sic), tipo aborto ou contraceptivos, a esquerda dedicava ao Vaticano um cristalino ódio.

E no futuro? O comunismo, pelo menos do modo que o conhecíamos, deixou de contar. Mas de que forma a Igreja abordará os ligeiros pecadilhos do quotidiano, que se tornaram, nas horas vagas, as bandeiras dos "progressistas"? Chamem-me ingénuo, mas ainda não imagino uma encíclica papal em louvor da interrupção da gravidez, ou uma "urbi et orbi" abençoando as drogas leves. Apesar do clima de núpcias, a actual coesão está presa por fios, ou pelo desprezo ao "satã" americano.

Além disso, há o reverso da medalha. Eu não sou religioso, logo não atribuo a Nossa Senhora a felicidade do ‘Prestige’ se ter esparramado na Galiza. Mas tenho amigos católicos, e esses sentem-se, para sermos suaves, um tanto envergonhados com a história. Se durar muito, cansam-se. Ou seja: na ânsia de agradar aos troianos, a Igreja ainda acaba por perder também os gregos. No fundo, o mesmo destino do prof. Freitas. Não admira que andem ambos aos encontrões.

2. Numa época em que tanto se fala da necessidade de apoiar as pequenas empresas, é no mínimo hipócrita condenar o partido do dr. Monteiro. Está bem que ele mesmo já assumiu não ter grandes ideias para o País (nós desconfiávamos). Está bem que não é frequente um partido nascer à margem do eleitorado. Está bem que as excepções a esta regra são os partidos "carismáticos" (e atribuir carisma ao dr. Monteiro seria uma liberdade poética).

Mas as más-línguas queriam o quê, que o homem fosse procurar emprego? Em que ramo, não poderão explicar? O regresso à banca, onde consta que ele passou uns tempos? A alergia ao euro não deixa. E, no resto, quem levou a adolescência a colar cartazes e a idade adulta a fazer pequena intriga não pertence exactamente aos "quadros" qualificados que o País exige.

Ao fundar um partido, por não caber no seu, o dr. Monteiro não concorreu a subsídios ou pediu comendas: limitou-se a aplicar os seus talentos (digamos assim) a um projecto em nome individual. A viabilidade do dito é assunto do mercado. Não é nosso.
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