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Correio da Manhã

Opinião
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28 de Maio de 2006 às 00:00
Quinta-feira, 1 de Junho, dia Mundial da Criança, o Coliseu de Lisboa volta a encher-se de uma multidão jovem, cheia de vida. São os fãs dos ‘Morangos com Açúcar’, que não perdem nada da novela juvenil e que, com esta gala, vão assistir a mais uma actuação dos D’ZRT. Todos esses jovens têm muita coisa em comum: a idade, claro, mas também o vestuário, as poses, o vocabulário.
Não sei se será lícito falar numa geração ‘Morangos’, mas pode dizer-se que existe uma identificação cada vez maior entre os heróis da TVI e os jovens que frequentam as escolas. Não é grave, já que se trata de algo inconsequente. Uma geração é sempre mais do que as calças de ganga, os penteados ou os namoros arrojados. No entanto, recentemente, os jornais deram eco a uma estranha notícia. Numa escola nos Pombais – junto a Odivelas, nos arredores de Lisboa –, um grupo de alunos teve de passar pelo hospital apresentando todos sintomas semelhantes: suores, comichão no corpo e casos de histeria.
Os médicos não detectaram nada de anormal, mas as queixas continuaram. Depressa foi dito que se poderia estar perante um caso de contágio, não de um vírus real, mas de uma espécie de sedução com a história que, nos ‘Morangos’, vinha a atormentar as suas personagens: o vírus do Colégio da Barra.
As novelas são campo de ficção e, assim, entende-se que os telespectadores têm a maturidade suficiente para discernirem a verdade da imaginação. Este episódio na escola dos Pombais – segundo a Imprensa, ter-se-ão verificado situações semelhantes um pouco por todo o País... – obriga-nos, porém, a alguma reflexão. Se calhar, quando os autores das novelas imaginam as suas tramas – com histórias de traições e violência, amores e ódios – devem pensar que, por vezes, os públicos têm menos maturidade do que se julga.
O vírus do Colégio da Barra ultrapassou os 60 minutos dos episódios diários e instalou-se na vida dos fãs. Terá sido um caso sem consequências, mas acredito que os pais estarão agora mais preocupados quando os seus filhos se grudarem frente aos televisores. Se uma história – aparentemente naïf e simples como os ‘Morangos’ – pode despoletar cenas destas, que pensar quando o modelo já é imitado pela concorrência, em ‘Floribella’, como o caminho a seguir para a conquista de audiências? Por muita sinalética que se coloque no canto superior direito dos ecrãs, sobra sempre uma inquietação: se a realidade começa a imitar a ficção, onde é que poderemos parar, num País, como o nosso, viciado em novelas?
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