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Correio da Manhã

Opinião
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15 de Abril de 2006 às 17:00
Não vale a pena dramatizar a situação mas é um acto inútil desvalorizá-la. Os portugueses, de Norte a Sul do País, dos mais variados estratos socio-económicos, não falam de outra coisa – a fuga ao trabalho dos deputados de todas as bancadas parlamentares, na quarta-feira passada, para iniciarem mais cedo umas “feriazitas” neste período pascal.
Foi naturalmente uma fuga que configura uma inquestionável questão de irresponsabilidade, porque o plenário da Assembleia da República estava a funcionar e havia diversas votações para fazer que, como é óbvio, tiveram que ser adiadas por falta de quorum. E aqui ninguém pode ser absolvido. Cinquenta deputados do PSD, quarenta e nove do PS, cinco do CDS, dois do PCP e um do Bloco de Esquerda estiveram-se nas ‘tintas’ para os trabalhos parlamentares e foram tratar da sua vidinha.
Espanta-me tamanha insensatez. Numa altura em que no País a palavra de ordem é reformar o sistema, repor a ordem e estabelecer critérios de eficácia e rendimento dos serviços públicos, eliminar os vícios e as extravagâncias das instituições é que os deputados põem em causa o funcionamento do Parlamento com uma leviandade que chega a ser caricata.
As bancadas parlamentares podiam até ter anulado a sessão plenária de quarta-feira e com isso sempre disfarçavam esta fuga ao trabalho. Mas não. A descontracção é de tal ordem que nem se deram a essas diligências, como se não fosse notada a ausência de tantos deputados.
Outro aspecto não menos grave e que de certo modo ajuda a explicar este disparate é a atitude pouco séria de 107 deputados que assinaram o ponto e abandonaram os trabalhos. Os deputados fazem isso todos os dias sem que sobre eles se exerça qualquer coacção. Por isso na Assembleia da República existem deputados que cumprem os seus deveres, justificam o voto dos cidadãos e os ordenados que auferem e há outros que por lá passam, assinam o ponto, trocam umas impressões e saem para desenvolver outras tarefas de natureza particular. Trabalham pouco, não estudam os dossiers, não se inteiram das necessidades dos seus eleitores, não fazem intervenções no plenário e, como é evidente, não cumprem os compromissos que assumiram com o eleitorado. A necessidade de recuperar a imagem dos políticos e da política, e a importância de reganhar o prestígio das instituições democráticas, impunha maior bom senso, rigor, sentido cívico, postura ética.
Os deputados que abandonaram à socapa os trabalhos da Assembleia deram uma machadada profunda na marcha lenta de recomposição da imagem que vinha a ter lugar. Agora, nem a decisão de Jaime Gama, presidente da Assembleia da República, de obrigar todos os deputados a justificarem as faltas poderá deitar água na fervura. A crítica dos cidadãos é generalizada e sem reticências. Os deputados deveriam pedir desculpas ao País em vez de se enfatuarem como perus emproados.
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