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Correio da Manhã

Opinião
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1 de Agosto de 2004 às 00:00
as últimas duas décadas Portugal registou notável modernização, plena consequência da adesão aos critérios da União Europeia, do crescimento económico sustentado, bem como da capacidade negocial dos governos, dos partidos políticos, das entidades regionais e locais, das associações patronais e das estruturas sindicais. Todos, cada um à sua maneira, contribuíram para o que somos hoje, e somos muito. Existem no entanto aspectos, independentemente dos ‘motores de busca’ da Europa que continuam a ser assustadoramente preocupantes. De que falamos? Da tão conhecida sinistralidade rodoviária, demasiadas vezes a madrasta companheira de milhares de portugueses nas estradas, principalmente em períodos designados festivos, mas só para alguns.
Mas, afinal, porque se morre tanto nas estradas de Portugal?
Essa mortífera equação já inúmeras vezes avaliada, tem que ser reequacionada em diferentes perspectivas: a do cidadão condutor, com maior ou menor grau de responsabilidade em todas as latitudes da expressão, isto é, a maior ou menor taxa de alcoolemia, o pior ou melhor estado da viatura, o rigoroso ou displicente cumprimento do código da estrada.
A do Estado, com políticas de maior ou menor eficácia, ou seja, a ajustada ou descabida articulação dos poderes públicos e privados, a mais correcta ou deficiente construção e manutenção das estradas, o incentivo ou a penalização à renovação do parque automóvel.
É este, por simples que pareça, o binómio que aparentemente justifica tudo. Mas será justificação bastante? Talvez não.
Façamos alusão a outra realidade, por vezes não menos dramática: o consumo de tabaco. Sempre tão nocivo à saúde individual e pública, apesar das várias campanhas de forte e até violenta sensibilização dos perigos para quem fuma e mesmo para quem não fuma. No entanto, o fumador activo, mesmo conhecendo terapias convencionais e profilaxias alternativas, só deixa verdadeiramente de fumar com o verdadeiro e sério querer individual.
Também nas estradas, com radares domésticos e matreiros sinais de luzes, se tentam enganar as autoridades e a tão autoritária ‘Tolerância Zero’, não percebendo que esta não é mais do que cumprir o que está escrito na lei!
O número anual de mortes (1356 em 2003), acrescido do número de feridos graves (4659 em 2003), cujas mortes posteriores quase nunca são contabilizadas pela opinião pública, resultam numa repugnante realidade, muito superior ao número de baixas anuais registadas em combate na guerra colonial africana, para além do elevado custo económico, quer para o Estado quer para os particulares, por mais cruel que seja esta perspectiva de abordagem.
Também aqui o querer individual é a pedra angular, a peça-chave de uma estratégia que, quer queiramos quer não, só dará frutos em gerações futuras. A consciência cívica não se impõe, adquire-se progressivamente.
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