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Correio da Manhã

Opinião
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17 de Fevereiro de 2012 às 01:00

Eu já tinha lido nos jornais que a EMEL - a empresa que gere o estacionamento em Lisboa - tinha decidido mudar o visual das suas autuações, passando a deixar nos carros papelinhos de cor vermelha (para quem pecou muito), papelinhos de cor amarela (para quem pecou pouco) e papelinhos de cor verde (para quem não pecou e merece ser louvado por isso). Ora, se esta ideia de dar os parabéns a quem se limitou a cumprir a lei já me parece extraordinária, devo dizer que fiquei maravilhado quando vi o novo cartão vermelho, antes conhecido como "multa".

O cartão, além de informar o condutor de que "está a ser autuado por estacionamento irregular" (caso ele não tivesse percebido), acrescenta esta frase notável: "Imagine as horas de estacionamento que comprava com o valor desta autuação." Pois é, senhor condutor. Imagine. Imagine como o mundo seria um lugar mais bonito se você fosse honesto, em vez de trafulha. Imagine a felicidade que isso traria para toda a gente, a começar por si.

Esta frase aparentemente bem intencionada tem dentro de si o mesmo vírus paternalista que anda há centenas de anos a dar cabo do país. A EMEL declara no seu site estar mortinha por promover os "comportamentos responsáveis" e "sensibilizar os automobilistas". E você há-de reparar, caro leitor, que em Portugal ninguém se limita a fazer cumprir a lei. A multa vem sempre acompanhada de uma lição de moral, seja em forma de prédica, sermão ou puxar de orelhas. Poupem-nos, se faz favor. Quando é que o Estado e as suas empresas deixam de uma vez por todas de fingir que são nossos papás? Caros senhores da EMEL: multem. Mas a salvação das almas não é problema vosso, está bem?

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