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Correio da Manhã

Opinião
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Piloto morre em corrida de motos no Estoril

Francisco Moita Flores

Por que morrem os polícias?

Um polícia sabe que a morte faz parte da sua profissão. Ou a enfrenta ou não realiza a sua função que visa proteger os outros, mesmo aqueles que não os compreendem (...)

Francisco Moita Flores 20 de Fevereiro de 2005 às 17:00
1. A morte de mais um agente na Cova da Moura confronta-nos com uma realidade incontornável, presa aos quotidianos dos polícias: têm uma profissão de alto risco, trabalhando muitas vezes em territórios de violência que um cidadão normal nem consegue imaginar. Por vezes morrem, outras vezes matam.
Um polícia sabe que a morte faz parte da sua profissão. Ou a enfrenta ou não realiza a sua função que visa proteger os outros, mesmo aqueles que não os compreendem, que se recusam a aceitá-los como cidadãos com os mesmos direitos dos outros cidadãos. Portanto, a morte de um polícia em serviço nunca é um acto individual e íntimo. É um acto de solidariedade que o cinismo político procura iludir.
2. Cinismo que se manifesta de duas maneiras. Ou por completa indiferença às condições de segurança pessoal: carros, protecções, armamento ou, então, pela via do espectáculo: um polícia morto vale uma palavra de pesar, um indivíduo morto pela polícia vale, por vezes, manifestações e palavras severas contra a Polícia. O Bloco de Esquerda tem feito escola nesta área da demagogia barata.
3. Mas ao contrário do que tem sido dito pelos sindicatos de polícia, embora a comoção desculpe que não digam outra coisa, os polícias morrem por causa da política.
4. Da política do poder central que nos últimos dez anos reagiu a impulsos mediáticos e não subordinou a estratégia de investimentos a uma organização policial sustentada, e integrada, indiferente aos noticiários. Ex: assaltos nos comboios. A televisão mostra. Chega o ministro e afirma que reforça a segurança. Assaltos em bombas de gasolina. A televisão mostra. O ministro chega e etc... Grande caso de corrupção, televisão, ministro, etc... Tudo se repete e etc...
5. Os últimos dez anos produziram reformas em várias direcções. A criação de superesquadras, o policiamento de proximidade, programas de relação polícia-cidadão. Alteraram-se os paradigmas criminais: as infracções económico-financeiras foram eleitas como a prioridade, os crimes sexuais, o branqueamento de capitais, a distribuição das competências da investigação criminal e nenhum governo teve a coragem de perceber que nada disto faz sentido sem uma reforma profunda, diria estrutural, das polícias, começando pelas competências territoriais, passando pela coordenação transversal das operações de polícia em vez dessa caricatura de topo de hierarquia que dá pelo nome de Conselho Superior de Segurança Interna.
6. Morrem por causa da política autárquica. Que adia a resolução de problemas sociais como são o caso da Cova da Moura, do Estrela de África, do 6 de Maio, fabricando guetos, permitindo a auto-exclusão de grupos e, por esta via, a auto-regulação, a fuga à ordem do Estado para reinar a ordem do gang. Há muito que estes bairros deveriam ter sido renovados, abertos à cidade, terminando de vez com o isolamento em ilha, proporcionando uma adequação de vivências ao imperativo da paz social.
7. Morrem por causa da indiferença política. Veja-se a campanha eleitoral que terminou. Nem uma palavra sobre segurança interna. Um assunto tabu. Um interdito. Ou talvez a mais desbragada das ignorâncias. Não sairá seguramente das eleições que hoje se realizam a resolução destes problemas. Foi em Évora, com um governo do PS, que pela primeira vez os guardas da PSP entregaram as armas. Depois disso, esta é a terceira vez que o fazem. Agora com um governo PSD. De nada lhes valerá este protesto simbólico. E assim irá continuar. A primeira desculpa é que não há dinheiro para a segurança.
Mas quem conhece o reino da anarquia instalado, sabe que a primeira das desculpas esconde a indiferença mais profunda pelos polícias que morrem e pelas populações que sofrem com a violência. Não há esperança. E os polícias irão continuar a morrer.
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