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Correio da Manhã

Opinião
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Tiago Rebelo

Por que não?

“Ela ri-se, lisonjeada com o convite, mas responde-lhe que não. Ele ri-se também”

Tiago Rebelo 8 de Janeiro de 2012 às 00:00

Ela desce o parque Eduardo VII a meio da tarde. E depois, o Marquês e a Liberdade. Mal conhece a cidade e é tudo novo. Está sozinha, veio trabalhar para Lisboa e ainda não se dá com ninguém. Chega à Baixa e senta-se no rebordo do tanque que rodeia a fonte. Abre uma lata de refrigerante ainda fresca que comprou algures. Veio para recomeçar, um emprego, um pequeno apartamento arrendado que terá de mobilar com o tempo e conforme as disponibilidades.

O ordenado é à justa. Trabalha num centro comercial, numa loja, onde há de tudo para o lar, mas ela própria só poderá comprar alguns desses artigos por mês. Sai de casa mais cedo e aproveita o tempo livre para passear enquanto se dirige para o emprego. Poupa dinheiro e aproveita para conhecer a cidade, aqueles recantos que só se dá por eles a pé. Sobe ao Chiado, embrenha-se na multidão que entra no centro comercial.

Tem um longo turno pela frente, mas, com sorte, terá tantos clientes para atender que não lhe sobrará tempo para divagar sobre os amores falhados. Agora é novamente uma mulher sozinha, enfim, prefere pensar que é uma mulher livre, embora, na verdade, não se tenha exactamente libertado do desgosto que a trouxe ali.

Um homem engravatado, jovem, pergunta-lhe quanto custa uma caneca de loiça. Ela diz-lhe o preço. Ele sorri-lhe, vou levar, afirma. Ela assente. Tem o seu nome inscrito ao peito e ele toma nota mentalmente. No dia seguinte, regressa, vai ter com ela, trata-a pelo nome, entrega-lhe mais uma caneca, diz que a quer comprar. Ela passa o seu cartão multibanco na máquina e repara no nome dele inscrito no cartão.

No dia seguinte aparece ao fim da tarde para comprar outra caneca. Outra?!, exclama ela divertida com o inusitado da situação. Ele esboça um largo sorriso, faz que sim com a cabeça e surpreende-a com um convite para jantar. Gostava de a conhecer melhor, diz, pode ser aqui mesmo, no centro comercial. Ela ri-se, lisonjeada com o convite, mas responde-lhe que não. Ele ri-se também e tenta convencê-la. Ela dá uma desculpa qualquer sobre o trabalho e ele não insiste. Mas volta para comprar outra caneca no dia seguinte e avisa-a de que vai voltar e comprar todas as canecas da loja até ela aceitar o seu convite.

À sétima caneca, a visita dele já é a parte mais divertida do dia. Conversam, riem, ele pergunta-lhe se é hoje, ela pensa por que não?, e aceita o convite.

Passou quase um ano, ele convence-a a viverem juntos, e, mais uma vez, ela pensa por que não?, e concorda. Então ele diz, já que vamos viver juntos, casa comigo, e oferece-lhe um anel. E ela, que já nem se lembra por que veio viver para Lisboa, leva a mão à boca, emocionada e feliz, e diz que sim, por que sim.

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