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Correio da Manhã

Opinião
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30 de Maio de 2006 às 17:00
Não é inesperado nem imprevisível o que se está a passar em Timor. Feridas com décadas não se curam instantaneamente. A aprendizagem democrática não nasce de geração espontânea. A transformação económica será lenta e penosa e os equilíbrios sociais instáveis e incertos.
Em Timor, não é necessária uma tempestade para ameaçar a ténue estabilidade política. O impacto das decisões governamentais ou militares não é meramente genérico e, por assim dizer, anónimo: condiciona e afecta a vida de pessoas e famílias, numa sociedade em que governantes e governados, todos se conhecem e reconhecem e nem sempre estiveram do mesmo lado das diferentes barricadas.
Nesta crise, a fragilidade das Instituições é visível na forma como as forças armadas e a polícia se têm comportado, mas também nas atitudes dos órgãos de soberania.
Por maiores que sejam, é vital que as diferenças entre Governo e Presidência se resolvam no quadro político constitucional. Se o poder político gerar, ele próprio, a instabilidade, regressa o espectro da guerra civil, dificilmente controlável pelas forças estrangeiras. As rivalidades e as incompreensões só podem ser ultrapassadas com uma reconciliação profunda entre os timorenses. De outra forma, Timor será presa fácil para os interesses (alguns dos quais, estrangeiros) que ali se movem – políticos, económicos ou outros. Mas, para a reconciliação e para o futuro de Timor, é indispensável o contributo da Igreja.
A autoridade da Igreja na sociedade timorense é um elemento histórico que nenhum governo pode ignorar. Uma realidade tão evidentemente agregadora como a Igreja Católica, pode ajudar o poder político timorense a fazer a pedagogia cívica, indispensável a uma sociedade que se habituou a sobreviver no meio da violência e apesar dela.
A Igreja, até pela personalidade dos seus bispos, deve ser encarada como factor de sucesso para a estabilidade política: não há outra Instituição que ofereça aos timorenses tanta confiança e disponha de idêntica credibilidade. Perante as dificuldades (naturais ou artificialmente induzidas) é desejável que a comunidade internacional não se desinteresse do destino do mais jovem país do mundo – mas é um risco que os responsáveis de Timor não devem ignorar. A paciência da comunidade internacional é limitada e condicionada, actualmente, por outras prioridades.
Quem quiser desestabilizar Timor tentará, seguramente, explorar a crescente frustração internacional com os últimos acontecimentos. Ao longo da ocupação indonésia, os timorenses acabaram por ser vistos como vítimas, mas a compaixão internacional será posta em causa se os agredidos de ontem se converterem nos agressores de hoje.
Portugal, no que puder e souber, tem um papel insubstituível, e seria incompreensível que abandonasse ‘o barco’, numa retirada que não deixaria de ser vista como a reedição do abandono militar de 1975. Mas para que Timor se mantenha como causa justa e legítima, também é justo e necessário pedir aos dirigentes timorenses que não desperdicem hoje, o que ontem tanto fizeram por conquistar.
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