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Correio da Manhã

Opinião
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29 de Setembro de 2006 às 17:00
No passado fim-de-semana, antecipando a visita do PR a Espanha e a passeata de Aznar a Lisboa, para basbaque ver e ouvir, foi noticiado que uma percentagem razoável de Portugueses se não incomodaria de ser espanhol, nem que a capital da península fosse Madrid.
Duvidamos da inocência da ‘notícia’. Mas não duvidamos da sua falta de rigor. Porque ela foi o modo mais leviano de abordar a questão central das preocupações de todos os Portugueses. Sentirem-se, ou não, bem na sua terra. Sentirem-se protegidos pelo seu Governo e bem com os seus políticos. Recompensados pelos seus empresários e patrões. Protegidos pelas suas instituições. E não sentem. Sentem-se marginalizados na sua própria terra. Ao ponto de qualquer coisa ser melhor para eles do que o que têm.
Não há nacionalismos ameaçados nem nenhuma epidemia de Miguéis de Vasconcelos. Há descontentamentos.
Podíamos perguntar-lhes se se importavam de ser Americanos, Brasileiros, Australianos, Canadianos, Franceses, Suíços, Luxemburgueses, que sempre nos diriam que não. Mas foi ‘espanhóis’ que lhes perguntaram .
E depois há esse destempero tonto e arcaico do chamado iberismo. De que ciclicamente se fala com a mesma leviandade com que nos cabeleireiros se fala da vida das comadres. Só que hoje o nosso espaço de integração política já não é a península. É o espaço da comunidade em que a Espanha também se integra.
Os Portugueses nunca foram, nem são agora, iberistas. São grandes apreciadores do sabor da liberdade. São ciosos da sua história e da sua cultura e língua. Prezam de mais a sua independência política. E procuram há séculos a sua independência económica. Que não é Madrid que ameaça. São os nossos empresários. Daí que qualquer sugestão de uma ligação política ibérica seja tão descabida como o receio da mesma.
Os restos mortais do iberismo resultam de um desconhecimento da realidade europeia, da realidade nacional e, muito especialmente da realidade dita ‘espanhola’.
A Espanha é uma manta de retalhos de povos com línguas, culturas e sensibilidades muito diferentes que há longos anos lutam contra o centralismo de Madrid. Que tudo fazem para ver reconhecida a sua autonomia e a têm vindo a conseguir a pouco e pouco.
E nos invejam.
A questão, em Portugal, é outra. É de desencanto. É que os Portugueses estão fartos de ver a ‘nossa’ Galp a vender combustíveis mais baratos a espanhóis do que a portugueses. A pagar os carros mais caros do Mundo. Estão fartos de que Campos, impunemente, mande as mulheres Portuguesas ter os seus filhos em Espanha. Estão fartos de ver a economia dos nossos vizinhos a crescer e a nossa a não passar da cepa torta. Estão fartos de ver os empresários nacionais e seus doutorais porta-vozes a fazer lindos discursos e a pedir cada vez mais (para si próprios) e nada fazer pela economia real. Fartos. E com a exaustão vêem as miragens.
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