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Correio da Manhã

Opinião
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28 de Agosto de 2003 às 00:00
No último fim-de-semana o PS realizou a sua rentrée partidária.
Sardinha assada. Militantes, a maioria recrutada "voluntariamente" em lares da terceira idade de municípios de influência socialista. Simpatizantes precariamente transportados em camionetas assucatadas importadas do Leste europeu. E, ao cair da noite, o habitual e "inovador" comício, com a intervenção de fundo do seu secretário geral.
Portugal no seu pior, com a criatividade e a modernidade ao serviço da actividade política no seu nível mais baixo. Quando será que os partidos mais responsáveis entenderão que, até muito por mérito da sua intervenção, o País que retratam anualmente nestas "Grandes Farras" já não tem expressão nacional?
O Portugal de hoje enche o estádio Alvalade XXI porque está sedento da modernização que ele consubstancia.
Os lisboetas aceitam e elogiam o "incómodo" de só poderem entrar a pé nos seus bairros tradicionais porque desejam o progresso corporizado pelas corajosas decisões que têm vindo a impor essas novas regras.
Os Portugueses já não vão espontânea e massivamente a comícios partidários porque sabem que, graças à evolução da nossa sociedade, têm outras formas, mais tranquilas e esclarecedoras, de tomar conhecimento do pensamento, das ideias e das propostas dos seus líderes.
Felizmente, já não nos faltam jornais qualificados, televisões agressivas e revistas com conteúdo. A bom preço, consultáveis no conforto da sala de estar, com uma bebida agradável no copo!
Apesar desta constatação, evidente, os aparelhos partidários insistem. Calor, poeira, horas de penitência em pé, comiseração para aceitar os gritos estridentes do animador de serviço, finalmente, uma paciência infinita para assistir a um infindável número de discursos sem conteúdo, é a receita que oferecem a quem ainda tem que os ir aturar.
Teve um pouco de tudo isto o início de mais um ano de oposição socialista.
Foi um desastre na forma e uma catástrofe na substância.
Mobilização, até pelas razões atrás expostas, quase nula. O que as televisões mostraram, foram clareiras entremeadas por rostos envelhecidos e distantes.
"Décor", terceiro mundista, digno de um comício de campanha nas profundezas do Burkina Faso. Palco atamancado, inundado por uma multidão de dirigentes amontoados anarquicamente, mergulhado numa escuridão absoluta. Um desastre.
Porque é que não pedem um filme do mini-comício de apresentação da candidatura de Pedro Santana Lopes à Câmara Municipal de Lisboa e copiam o que lá se passou? Bem, eu sei. Mesmo para copiar com fidelidade é necessária alguma competência!
Mas, depois, veio o pior. Em crescendo, qual argumento "hitchcockiano". O pior foi, obviamente, Ferro Rodrigues e a sua prestação.
Não sou tão cáustico quanto o foi o socialista Carlos Candal e tenho consideração pessoal pelo personagem, mas, infelizmente para o PS, estamos perante o grau zero de uma prestação comunicacional minimamente inteligível.
Dicção, presença e postura continuam a ser o que eram. Invendíveis.
Conteúdo. Anárquico e vazio. Incomprável.
A única mensagem que o País apreendeu, foi a que havia ocorrido um ataque violento contra Paulo Portas. Erro de palmatória! Um candidato a primeiro-ministro não se dirige a pessoal subalterno, mesmo que seja ministro de Estado e da Defesa. Deve dirigir-se sempre ao líder do Governo, sob pena de se estar a passar subliminarmente aos eleitores uma mensagem de nivelamento por baixo. E quando será que o PS entende que, para além de Paulo Portas ser muito resistente e ter o apoio de Durão Barroso, a sua improvável queda não seria uma catástrofe para a maioria. Ou será que Maria José Nogueira Pinto ou Lobo Xavier não têm perfil para ministros de Estado?
Agora que o Governo tem melhorado as suas prestações, como português achava útil poder existir uma boa oposição. Como militante partidário desejo muita saúde pessoal e política ao secretário geral do PS. Que se mantenha por muitos e bons anos naquela honrosa função.
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