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Correio da Manhã

Opinião
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5 de Maio de 2004 às 00:00
Os responsáveis europeus insistem em riscar o cristianismo da Constituição da Europa.
Ora, reconhecer o contributo e o papel do cristianismo na formação da identidade europeia, parece coisa óbvia, sem que esse reconhecimento signifique ignorar outras contribuições de outras manifestações religiosas e culturais.
Sem reconstituir fielmente os fundamentos da Europa, o texto constitucional europeu perde sentido, porque deixa de explicar como chegámos ao que somos.
Não é o cristianismo que precisa da Constituição europeia – a Europa, para se entender e ser entendida, é que não pode prescindir do cristianismo.
Identificar as impressões digitais do cristianismo na Europa não significa também abater as fronteiras Estado/Igreja, como supõe um certo laicismo militante. Por estarem bem delimitadas as diferentes esferas de intervenção do religioso e do poder político é que se torna ainda mais incompreensível esta reacção de avestruz dos dirigentes europeus.
Hoje em dia, é perfeitamente claro que a Igreja não pretende mandar no Estado, mas começa a nascer a sensação inversa: algumas correntes procuram ignorar a Igreja, escondendo-a na sociedade ou apagando-a da História, que assim tentam reescrever.
O actual contexto internacional, em que o fenómeno religioso é frequentemente instrumentalizado, também não explica todos os preconceitos quanto à nossa identidade cristã.
O projecto europeu (importante para os europeus e cada vez mais necessário no actual sistema internacional) assenta numa realidade plural e multicultural. As diferentes manifestações culturais e religiosas devem encontrar na Europa um espaço de diálogo e encontro – assumindo, mas respeitando a diversidade. E esta matriz de respeito e diálogo entre diferentes convicções, há-de representar também o modelo de relacionamento da Europa com outros povos e outras culturas, sem procurar impor, a todo o custo, propostas e receitas acabadas.
Mas parece ter chegado a altura de os europeus, devendo ser tolerantes para com os outros, se proporem usar da maior intolerância, relativamente à sua própria matriz de civilização.
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