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Correio da Manhã

Opinião
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22 de Agosto de 2006 às 17:00
Após diversas semanas de guerra no Líbano, em que ponto estamos? O que ficou resolvido? O que se ganhou? E, sobretudo, o que se perdeu? Valeu a pena a morte de centenas ou milhares de pessoas? Há benefícios que compensem os estragos materiais e a enorme perturbação da vida dos povos da região?
Com mais este conflito no Líbano, o Médio Oriente e o mundo estão mais perto ou estão mais longe da paz?
Os primeiros dias depois do cessar-fogo deixam o óbvio à vista: pela via militar ou pela via diplomática, o conflito, que transcende e em muito o teatro de guerra libanês, está para lavar e durar. É indiscutível a universalidade do direito à paz. Palestinianos ou israelitas, todos têm o direito de viver a paz e de se organizarem em paz. E nessa organização, pacífica, inclui-se o direito à estruturação de Estados que enquadrem a vida de povos e nações.
Em 2006, continuar a negar, na teoria ou na prática, o direito à existência do Estado Palestiniano ou contestar a legitimidade do Estado de Israel representa uma teimo-sia anacrónica que finta a paz e favorece a guerra.
De ambos os lados, a retórica e as práticas mais radicais ajudam a excitar fundamentalismos, ressentimentos e ódios. Os radicais, que em qualquer dos lados da barricada mandam na guerra, espalham e alimentam-se do ódio, em dimensão suficiente para cegar as consciências, alimentando-lhes a ideia de que a paz só chegará com o extermínio do ‘inimigo’.
A utopia da destruição do ‘outro’ como condição para obter a paz é estimulada também pelos grupos terroristas que congregam (em nome desse objectivo) apoiantes em franjas das sociedades, tanto no ocidente como no oriente.
Invocar argumentos religiosos como motivação para acções terroristas ou para agudização de conflitos militares no Médio Oriente é, cada vez mais e apenas, o rastilho considerado mais apto para mobilizar e incendiar apoiantes. Sem o pretexto religioso ficaria mais à vista o real objectivo dos senhores da guerra.
Tal não implica que no plano religioso não existam no Médio Oriente perspectivas que se chocam ou divergem. Tal não invalida que também no ocidente se deva procurar um clima de respeito e confiança entre diferentes comunidades e culturas. Mas sem a predisposição violenta de grupos radicais, tais diferenças religiosas poderiam ser ultrapassadas, na actualidade, sem o recurso a uma desestabilização militante que não se restringe ao Médio Oriente, mas que se procura alastrar a todo o mundo.
O mal não está nas religiões em si, mas no seu aproveitamento criminoso e violento, por facções radicais, tantas vezes minoritárias.
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