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Correio da Manhã

Opinião
21 de Março de 2003 às 01:36
1.No debate de terça-feira, o Partido Socialista despertou de um longo torpor para atacar o Governo sem hesitações. Infelizmente, também sem a sombra de um argumento. Liderado, de forma bastante apropriada, pelo dr. Alegre, o assalto oscilou entre o mero disparate e a ladainha de cordel. Um estilo, aliás, recentemente repescado pela dra. Ana Gomes, ao que consta a grande promessa do bando para a temporada em curso.

Na agenda do PS, e sobretudo a partir das Lajes, brilham quatro pontos: 1) os EUA são os "polícias do mundo"; 2) o apoio do Governo aos EUA é co-responsável pela divisão da Europa; 3) na cimeira em causa, o dr. Barroso foi o "porteiro", ou o "estalajadeiro", ou o "mestre de cerimónias" dos "senhores da guerra"; 4) o PS opõe-se à guerra, seja ela qual for.

Cada alínea do sermão é susceptível de rivalizar com o dr. Louçã na arte do palratório desmiolado. Não admira que gente menos exótica, género Jaime Gama, se tenha remetido a um embaraçado silêncio. É que nem vale a pena entrar em detalhes. Como o da sorte que temos em que a balança do poder penda para o lado de Bush, e não de um Saddam avulso. Ou que a temida divisão da Europa seja obra da França, da Alemanha e da Rússia (que, de resto, passaram o século XX a tentá-la). Ou ainda que, nas Lajes e não só, o dr. Barroso tenha tido a coragem e a decência que devíamos estar habituados a exigir a um primeiro-ministro, mas não estamos. Escusado explicar, enfim, que, em última instância, a pura recusa de uma guerra é – queira-se ou não – a defesa dos valores que essa guerra visa combater.

Alegremente desprendida da razão e do bom senso, a espécie de estratégia do PS prende-se por diferentes fios: segundo aprendemos esta semana, socialista que se preze nunca coloca o pragmatismo à frente dos "princípios". Ora aí está: socialista que se preze pode distorcer a realidade, martelá-la até que ela caiba no molde, mas dos seus "princípios" não abdica.
Sucede que o único e imutável "princípio" do PS é a obediência à "opinião pública", conforme esta se exprime nas manifestações de rua ou nos inquéritos de opinião. Guterres não governava por sondagens? De facto, seja por Timor, seja contra os EUA, o socialismo tem de estar aonde está o povo – pelo menos o povo que faz muito barulho, e que, se adulado sem parança, talvez se esqueça do custo de seis anos dessa exacta adulação.

Por isso não espanta ver, por exemplo, as relíquias republicanas citarem o Papa. Coitado do Papa. Desde que fosse popular e permitisse uns "slogans" jeitosos, os socialistas seriam capazes de citar na totalidade os pensamentos de Kumba Ialá, ou a lista telefónica. Para sua desdita, os socialistas só não podem é citar o dr. Sampaio. A não ser que façam do ridículo um outro princípio, é claro.

2.Começou a guerra. No Ocidente, os seus oponentes têm agora renovados pretextos para manifestações e vigílias. Os seus defensores contentam-se em desejar os lugares-comuns da praxe: que seja breve, eficaz e, dentro do possível, digna. Ao contrário da lenda, os "falcões" que eu conheço não se deleitam com a destruição de cidades, nem com a inevitável morte de inocentes. Trata-se apenas de acreditar no primado da liberdade sobre o medo, da civilização sobre a barbárie.
Há, ainda, uma terceira parte, da qual pouco ou nada se fala, mas que é, no fundo, a mais desesperadamente interessada.

Uma parte que se revela nas palavras do velho curdo ao jornalista inglês John Sweeney: "Ainda que a guerra mate metade de nós, servirá ao menos para libertar a metade que sobra." Ou que se levanta nos festejos com que a comunidade iraquiana de Londres seguiu pela televisão os primeiros bombardeamentos. A haver coisa tão absurda como a felicidade em tempo de guerra, essa pertence às vítimas de Saddam por direito e por inteiro.
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