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Correio da Manhã

Opinião
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5 de Novembro de 2006 às 00:00
Sentado calmamente, mesmo debaixo de água, o leitor português observará estas linhas, ao mesmo tempo que, em Bagdad, a (ex-) Magnífica, se lavrará a sentença de um dos julgamentos a Saddam Hussein.
A acusação é a de tortura e morte de centena e meia de iraquianos xiitas, na localidade de Dujail, em 1998.
O processo teve repercussão internacional (com Saddam a ser representado por causídicos da Europa, dos EUA e de países árabes), desenrolou-se com incidentes notórios, provocou a substituição de juízes, a morte de advogados e potenciais testemunhas, envolveu ameaças dos réus à Justiça, e vice-versa, e originou a discussão sobre a natureza e legitimidade do tribunal, das leis que aplica, e dos critérios que segue.
O responsável pela defesa do ex-homem forte (agora reduzido ao gesticular operático), o advogado Najieb al-Nuaimi (antigo ministro da Justiça do Qatar), espera pela pena de morte, hoje, e afirma o absurdo de um recurso que, na sua opinião, se fará para entidades que co-participaram no julgamento.
Apesar de todas as insuficiências, manipulações, vergonhas e paradoxos, atropelos e confusões, é importante que o processo se tenha dado e que a assistência judiciária aos acusados se tenha feito até ao último minuto. Ao menos não existiu uma execução sumária, em que investigador, Polícia e réu agiram no mesmo momento. Ao contrário do passado.
O que não quer dizer, obviamente, que o Iraque do presente possa estar satisfeito com o estado das coisas. E com o estado das armas. E com estado das almas.
JOVENS TURCOS
A propósito de uma entrevista para a ‘Sociedade das Nações’ pude conversar um pedaço com o ministro turco encarregue das negociações com a UE, Ali Babacan. Chegou a Lisboa num momento tenso, na altura em que o chefe do seu governo acusa Bruxelas de colocar novas condições para a adesão. Discutimos muito a questão dos direitos humanos no seu país.
Lembrou-me que tinha sido, como outros membros do actual governo, vítima de excessos nesse campo e que o seu chefe político estivera preso por delito de opinião. Garantiu que a Turquia mudará tudo o que houver a mudar, nos códigos e nas práticas. No fundo, Ankara não pode continuar a ser vista pelo olho de Alan Parker, em ‘O Expresso da Meia-Noite’. Mas o comboio está ainda muito longe da estação.
NEGÓCIOS DE CHINA
Pequim termina a terceira sessão cimeira do seu fórum para a cooperação com África, lançado em 2000. Procura mercados e recursos naturais, mas também a internacionalização da sua cultura, o lançamento de pontes políticas e de laços de segurança apertados. Alguns olharão isto como uma peça de humor negro. Perdoando as dívidas ao continente, enviando contingentes maciços de trabalhadores e técnicos, soldados de paz e comerciantes, a China, independentemente do que se pense sobre o seu sistema, preenche um lugar vago. O ‘Ocidente’ compreende isto?
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