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Correio da Manhã

Opinião
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4 de Julho de 2002 às 23:49
Dir-se-ia que a sociedade se considera regida por essa proibição, senão explícita, pelo menos latente. Ninguém se atreverá porventura a enunciá-la. Como vivemos numa democracia, limitar-se-ão a pedir "por favor, não tenham ideias".

Veja-se só o que tem sucedido, nos últimos tempos, na vida política nacional. A título de exemplo, um entre vários, tomemos a intenção explicitada num despacho pelo presidente da Assembleia da República, a segunda figura da hierarquia do Estado.

No sentido de dignificar os deputados, cuja reputação tão abalada tem vindo a ser, Mota Amaral rogou aos parlamentares (rogou, entenda-se) que, quando se deslocarem ao estrangeiro, em representação oficial, apresentem, antes de partir, o texto das intervenções que vão fazer lá fora.

Sabendo-se, como se sabe, dos verdadeiros escândalos das viagens-fantasmas, da falta de assiduidade, da resistência à redução do seu número e das reformas de privilégio a que têm direito, os actuais deputados deveriam ter agarrado a mãos ambas essa oportunidade, que Mota Amaral lhes oferecia, para demonstrarem o interesse e a razoabilidade dessas suas saídas do País, o empenho e a seriedade com que as encaravam, e o absurdo das imputações de irem apenas fazer turismo.

Qual quê! Houve deputados que se bateram encarniçadamente contra o pedido do presidente da AR, esgrimindo com argumentos vários, entre os quais o de lhes pretenderem retirar a liberdade de expressão, e atrevendo-se mesmo a acusar o dr. Mota Amaral de querer exercer uma forma de censura. É o máximo que pode ser dito de um homem que já antes do 25 de Abril, quando alguns deles ainda usavam cueiros, lutava na Assembleia Nacional pela democracia e pela liberdade.

Cinco séculos antes de Cristo, o indiano Sidharta Gautama Mouni, que ficou conhecido como o Buda, disse aos seus discípulos: "Meus filhos, lembrai-vos que nada existe de constante neste mundo que não seja a mudança". A amplitude deste conceito parece não ter chegado ainda até nós. A constante é a estagnação, a inércia, o antagonismo a toda e qualquer ideia nova. E, claro, a crispação.
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