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Correio da Manhã

Opinião
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10 de Outubro de 2004 às 00:00
C’órror. Isto não me está a acontecer. Não póssooo!” O café estava cheio, as chávenas de café presas na mão, os empregados, quase estátuas vivas, pareciam irreais a olhar para o televisor pendurado a um canto, junto ao tecto. Aliás, estava toda a gente a olhar para o pequeno ecrã, de sorriso suspenso que se converteu logo em gargalhada quando José Castelo Branco largou em passo equilibrado, como num ballet clássico, entre uma estradinha de pedras, calçado com chinelas chiques, a caminho do barracão sanitário.
Portugal está rendido à vida no campo. Para quem não acreditasse na eficácia da nova aposta de José Eduardo Moniz para o relançamento da TVI, todas as dúvidas foram já dissipadas. Basta andar na rua. Na verdade, não se fala noutra coisa. Só a demissão de Marcelo Rebelo de Sousa, de comentador do ‘Jornal Nacional’, veio quebrar esta quase unanimidade nacional. Bem vistas as coisas, é uma vitória, em toda a linha, da estação de Queluz de Baixo, é uma prova do génio de José Eduardo Moniz.
O sucesso da ‘Quinta’ está na singularidade de algumas das celebridades. Ali há de tudo. Acima de tudo e de todos, o grande responsável por esta quase histeria nacional é José Castelo Branco. O homem que já é ‘Conde’ antes ainda de ter sangue azul, que veste a melhor ‘toilette’ só para ir mugir uma vaca, está a provar que o talento, quando nasce, não é para todos. Basta vê-lo, sabendo que está a ser filmado, em fingido cansaço, só para não ‘alombar’ com um balde de água para a rega das couves lombardas…
A ‘Quinta das Celebridades’ não é só o programa de televisão mais visto em Portugal. É o tema de conversa e o motivo das gargalhadas. Em apenas uma semana, parece que já o conhecemos há décadas, que ele e os companheiros de aventura já são da família. Castelo Branco, que sempre sonhara com a fama, desde os tempos em que habitava apenas num vulgar apartamento em Santo António dos Cavaleiros e se travestia de mulher – da formidável Tatiana Valesca Romanoff – conseguiu, finalmente, o seu palco. Agora é famoso. Agora já tem o País a seus pés.
No café, apesar de ser dia útil e hora de trabalho, apenas se escutava o som da TV, ampliado como em dia de futebol. Castelo Branco – quem mais? – voltava a encher o ecrã. Percebe-se bem, aliás, este jogo da apanhada entre a vedeta da ‘Quinta’ e as câmaras da TVI: “A televisão portuguesa é uma merda. Só passa programas bimbos em vez de estar a dar atenção à nossa conversa… É por isso que o País não vai para a frente.” Arremessando a cabeça para trás e alisando os cabelos, o ‘Conde White Castle’ manteve durante longos segundos a pose de uma diva debaixo do aplauso estridente da plateia. Ali, no café, não houve palmas. Mas foi por pouco…
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