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Correio da Manhã

Opinião
11 de Agosto de 2010 às 00:30

As mães dos portugueses estão sempre a pagar pelos pecados dos seus filhos. É injusto para elas, mas o insulto à mãe parece ser a forma mais eficaz de rebaixar outro português. É uma coisa muito tuga, muito nossa. Veja--se, por exemplo, Carlos Queiroz.

Segundo vem escrito no processo que lhe foi movido pela Federação Portuguesa, o seleccionador insultou uma brigada da Autoridade Antidopagem, com a brilhante frase (respirem fundo): "porque é que estes gajos não vão a esta hora fazer o controlo para a c... da mãe do Luís Horta?".

Como fino exemplar tuga que é, Queiroz não se atirou ao homem em causa, mas sim à mãe dele.

Mas, esmiucemos o que se passou. A selecção estava em estágio na Covilhã, e pouco passava das nove da manhã quando apareceu a brigada do "doping". Ora, o seleccionador tinha decidido que os "meninos", os jogadores, podiam ficar na ronha até às 10.30, hora a que estava marcado o treino matinal, e ao ver a brigada, enfureceu-se. Quem tinha o descaramento de aparecer assim, sem avisar, para acordar os seus meninos mais cedo? Os técnicos da brigada explicaram que só cumpriam ordens, que, evidentemente, vinham do presidente da Autoridade Antidopagem, Luís Horta. Sagaz, Queiroz percebeu tudo num minuto, e teve uma reacção maternal. Como se fosse a mãe dos jogadores, protegeu-os. É evidente que tinha toda a razão. Àquela hora, em vez de andar a chatear os "meninos" e obrigá-los a urinar para um tubo, aqueles senhores deviam era estar a actuar sobre o baixo ventre da mãe do Sr. Luís Horta!

Não se tratou pois de um insulto. Nada disso. Em primeiro lugar, foi um combate psicológico entre mães. De um lado, Queiroz, a mãe dos meninos, que queria que eles dormissem; do outro, a mãe do mau, Luís Horta, que queria que eles urinassem. Além disso, o que Queiroz fez foi uma simples sugestão de trabalho, do tipo "não analisem o xixi dos meninos, mas sim da mãe de Luís Horta!". É um desabafo, um "vão trabalhar para outra freguesia", não é um insulto!

Portanto, não há razão para a Federação despedir o seleccionador. Ele é, evidentemente, uma pessoa bem educada, maternal e correctíssima, e chega ao ponto, raríssimo entre nós, de ser gratuitamente voluntarioso, pois num segundo é capaz de dar belíssimas e inteligentes sugestões de trabalho a quem lhe surge à frente.

Despedi-lo? Mas porquê?

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