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Correio da Manhã

Opinião
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9 de Maio de 2009 às 09:00

John Baldessari está em Lisboa. Julgo que pela quarta vez. Em Portugal poucas, muito poucas, pessoas o conhecem, apesar de ser representado por uma das galerias mais dinâmicas da cidade – Cristina Guerra. No entanto, Baldessari é uma das referências da arte, consagrado e exaltado em todo o mundo. Revolucionou a linguagem visual nas últimas décadas e a sua obra, representada nos maiores e mais prestigiados museus do mundo, constitui uma reflexão inovadora sobre a condição da imagem nos tempos modernos. Baldessari, de Lisboa segue para Itália, onde na cerimónia de abertura da Bienal de Artes de Veneza vai receber o Leão de Ouro de Carreira, juntamente com Yoko Ono, viuva de John Lennon. Pois bem, Baldessari passa de novo pelo nosso país como se fosse um desconhecido. Quase ninguém dá por este norte-americano genial. Nem sequer a comunicação social portuguesa. A esmagadora maioria nunca ouviu falar dele.

Mesmo os que integram a secção da ‘Cultura’. São jornalistas incultos. Afinal reflectem o país que somos. Nós não convivemos com os valores da cultura. As grandes exposições não passam por Portugal. Os eventos com importância vão a todas as capitais, mas a Lisboa, não. Lisboa não está no mapa. É uma desolação. A grande música, os grandes artistas passam-nos sempre ao lado. A Gulbenkian está decadente e ninguém assume o seu legado. O Estado é ainda mais pobre. Nem sequer tem força anímica para estimular o circuito da cultura. As instituições mantêm-se de pé mas vivem num estado letárgico. No Porto, felizmente há dois faróis a iluminar os céus. Serralves e a Casa da Música. Serralves, sim, impressiona. A vitalidade, a energia, a competência moram em Serralves. E o povo apoia. Não são só as elites. A cultura vai ficando agarrada à pele. Serralves não tem paralelo. É preciso, faz bem à alma, ir frequentemente ao Porto.

Lisboa é uma aridez. E não se pode viver assim neste deserto sufocante. Paris, Londres, Roma, Barcelona... quem pode, foge. Um fim-de-semana para retemperar forças e tomar um banho de cultura. Mas se não se pode sair, há o Porto. Há Serralves, tão bom como os melhores espaços europeus. Devia haver Serralves de norte a sul do País. Como isso era decisivo e como isso se tornaria num hábito de que dificilmente se prescindiria. E John Baldessari não passava despercebido. O velho professor da Califórnia podia sentir mais o calor do afecto dos portugueses.

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