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Correio da Manhã

Opinião
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21 de Agosto de 2004 às 00:00
Zé Maria está de novo nas primeiras páginas dos jornais. Já não é a vitória de um concurso televisivo a razão para este reaparecimento, mas a sua entrada em estado grave no Hospital Miguel Bombarda. Uma crise psicótica profunda com tentativa de suicídio foi o diagnóstico dos especialistas em psiquiatria e psicologia.
Este internamento trouxe outra vez para a ribalta a discussão sobre o impacto da televisão nos dias de hoje. Como era de esperar aqueles que vêem a televisão como um meio a abater, agarram a oportunidade para tecer longas catilinárias sobre os seus efeitos nefastos sem cuidar de observar o fenómeno em todas as suas vertentes.
Tentando repor algumas coisas no devido lugar importa dizer que a televisão não pode ser culpada dessa forma primária e pouco inteligente. Zé Maria ganhou os seus minutos de fama e talvez tenha sucumbido quando as luzes se apagaram. Existem certamente muitas razões, nomeadamente súbitas e escondidas fragilidades psicológicas, para explicar isso.
Mas ‘ab initio’ Zé Maria é um cidadão maior, no pleno uso das suas faculdades, que por livre vontade se candidata a um concurso com grande exposição. O azar de Zé Maria pode ter sido a vitória no concurso mas ele foi lá para tentar ganhar. Era essa a sua vontade e o seu desejo maior. Zé Maria gozou a vitória mas não aguentou o retorno à sua vida anterior. A televisão é culpada?
Eu acho que não, porque esse era o pressuposto óbvio – o retorno à sua anterior condição. Foram e são muitas as reservas que tenho relativamente ao formato do concurso em que Zé Maria participou. O ‘Big Brother’, no seu formato original, é um exercício que mexe com questões delicadas da sensibilidade humana. Não o adopto por isso, mas reconheço que em Portugal o concurso foi habilmente aligeirado e transformado num “programa familiar”. Zé Maria foi o grande vencedor com toda a sua família no palco. O que lhe aconteceu dois ou três anos depois só por erro de análise pode ser assacado à televisão.
A televisão dá notoriedade, é verdade. Mas isso não a transforma num meio satânico. Diabolizar a televisão é um erro grave que prejudica em definitivo a compreensão do fenómeno mais fantástico da nossa contemporaneidade. Outro ângulo de observação interessante vem-nos da audimetria. No caso da primeira edição do ‘Big Brother’, exactamente aquela em que Zé Maria participou, pode bem dizer-se que a esmagadora maioria da população “assistiu” a muitas transmissões do programa na TVI.
Os intelectuais, os estudantes, os quadros médios e superiores, advogados, médicos, engenheiros, arquitectos, todos tiveram uma enorme curiosidade e anicharam-se em frente ao televisor. Aqueles que hoje tanto criticam a televisão e não desperdiçam nenhuma oportunidade para a desancar, engrossaram a enorme plateia que assistia ao ‘Big Brother’ e foram espectadores do Zé Maria e das suas estratégias para evitar ser expulso da casa.
Zé Maria ganhou uma elevadíssima notoriedade. Também porque jornais e revistas davam enormes destaques diários ao programa e seus hóspedes. Hoje, quando Zé Maria entra no hospital, as baterias voltam-se para a televisão. Mas quem está ‘inocente’ neste processo?
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