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Correio da Manhã

Opinião
29 de Setembro de 2013 às 01:00

Anos atrás, fui contratado para verificar perguntas portuguesas e estrangeiras para concursos. Encontrei muitos erros, incluindo em perguntas da BBC. Os autores criavam perguntas a partir da Internet, meio em que há muita falta de rigor.

O erro crasso e grave no Quem Quer Ser Milionário de quinta-feira foi decerto colhido na Internet: encontrei-o em dois sites. O ditado diz: "Dezembro frio, calor no Estio". Na RTP, Estio passou a "estilo". O concurso e a RTP inventaram um provérbio idiota e absurdo por ignorarem a palavra Estio, ou Verão.

A falha é inaceitável. Revelou a ignorância de toda a equipa, incluindo da apresentadora, e a incompetência na criação e verificação das questões na produtora e na RTP, num programa pré-gravado. "Calor no estilo?" A concorrente bem disse que não lhe soava; o público no estúdio rechaçou essa opção (se eu fosse a concorrente prejudicada, punha a empresa em tribunal e ficava milionária); as notas entregues a Moura Guedes indicavam que com calor se usa roupa "no estilo", um absurdo impensável num provérbio, cápsula de conhecimento em forma breve, ritmada e amiúde em rima (frio/Estio), para fácil memorização.

O regresso do concurso — com ar antiquado, pausas prolongadas até ao zapping, com iluminação de talho e perguntas ignaras — é parte da nova "estratégia" da RTP. A empresa inquiriu espectadores que não vêem RTP para saber porquê. Obviamente, estes disseram que gostariam que a RTP fosse como o que vêem, a SIC e a TVI. Os (ir)responsáveis da RTP, que punham a mão no peito pela "estratégia" anterior, começaram a defender, sem vergonha, também de mão ao peito, a nova "estratégia": fazer a RTP como a SIC ou a TVI. O presidente da RTP disse em entrevista que é só fazer como ele fez para lançar a Mini da Sagres e, já está!, conquista-se os jovens. Na nova "estratégia", a RTP 1 aposta em: concursos, como ‘Sabe ou Não Sabe’, onde se ganha dinheiro por não se saber as respostas; três telenovelas por dia, piores que as dos privados; aumentar o ‘Telejornal’ (já está mais longo do que os dois concorrentes); acabar com programas de reportagem e entrevista; substituir notícias de política e economia por notícias "leves"; fazer da RTP 1 o CCC, Canal (Tony) Carreira & Continente. Em resumo: a "estratégia" é fazer TV comercial, em vez de alternativa. Não faz qualquer sentido num operador do Estado pago pelos contribuintes. Mas o governo insiste em mudar leis e papéis, enquanto deixa a empresa entregue a incompetentes sem o mínimo sentido de serviço e de respeito pelo povo e seus impostos.

MOURA GUEDES: RESUMO DE UMA HISTÓRIA QUE ENVERGONHA A TVI

Em Herman 2013, M. Moura Guedes pôs o dedo na ferida sobre a sua saída da TVI por pressão de Sócrates: "é normal" os políticos pressionarem, "o que não é normal é que essas pressões passem, que haja uma empresa que deixe que os seus funcionários, os seus jornalistas sejam vencidos face às pressões dos políticos. Não é normal que haja em Portugal empresas de comunicação que se deixem vencer pelos políticos e que sejam pressionáveis ao ponto de os jornalistas terem de ser calados." Para eterna vergonha da TVI, Moura Guedes foi calada. Quatro anos sem trabalho, num tipo de desemprego ignorado nos noticiários. Agora apresenta um concurso, pois não conseguiu trabalho como jornalista. Antes isso que o desemprego.

COMO DAR A VOLTA A CHEFES A MAIS

n O presidente da BBC, Chris Patten, recomendou que se reduzam a metade as chefias da BBC. A RTP faz ao contrário: deixa sair técnicos e jornalistas competentes, mas nas chefias não toca. A elite parasitária defende-se. E finge: para enganar o governo, há chefias que desapareceram no papel, mas as mesmas pessoas exercem as mesmas funções com os mesmos salários.

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