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Correio da Manhã

Opinião
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2 de Março de 2013 às 01:00

Está na hora de revisitar os fundamentos da integração europeia. Esta, encarada do princípio, nos anos cinquenta, foi uma resposta hábil à ausência de tratado de paz na Europa depois da II guerra mundial; vista do meio, nos anos 90, foi a vitória da ‘comunidade de destino’, tantas vezes anunciada por vencedores e vencidos no continente; atualmente anuncia desilusão e tempestade.

O erro inicial foi o da fuga aos povos e ao escrutínio democrático. Disse-o por todos Mendés-France no parlamento francês em janeiro de 1957. Mesmo assim, foram grandes os serviços prestados pela Comunidade Europeia aos contemporâneos: paz, liberdade, bem-estar económico, progresso social. Foi deste modo que venceu a parte da guerra fria que lhe cabia, que se legitimou e que ganhou postumamente o Nobel da Paz.

Porém, o ‘método Jean Monnet’ acabaria por criar um hiato entre a Europa dos cidadãos e a Europa dos oligarcas e dos burocratas. Tal hiato revelou-se com nitidez na dança dos referendos sobre os tratados subsequentes à reunificação alemã. Quer a França, quer a Holanda chumbaram o de 2005 sem apelo. Já a Irlanda foi persuadida a repetir o seu, em 2008, sobre o tratado de Lisboa. Mas até então, as votações nacionais que inquietavam abertamente as chancelarias dirigentes incidiam sobre a própria arquitetura da UE. Assim, a dupla Merkel-Sarkozy julgou ter encontrado o remédio no convite à supressão do método referendário. Suprema ilusão e mau precedente. Com a crise financeira instalada na zona euro, os decisores fácticos deram um enorme passo em frente. Começaram a indicar os seus governadores favoritos nos países em dificuldade, acentuando a tendência à fuga da vontade popular. Na Grécia insurgiram-se contra a proposta de Papandreou de referendar a política de austeridade e depois insistiram na repetição de eleições para permitir um governo mais complacente; em França não disfarçaram que o seu favorito nas presidenciais de 2012 era Sarkozy; em Itália fizeram a vida negra a Berlusconi até à demissão deste. E conseguiram a nomeação de Monti. Ora é de novo em Itália que as diretivas da austeridade cega são derrotadas por eleições. Que tal uma refundação europeia com mais democracia e novas políticas?

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