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Correio da Manhã

Opinião
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18 de Fevereiro de 2012 às 01:00

À última hora, cancelou a visita que programara ao local, furtando-se assim aos alunos que se aglomeravam à porta, prontos a mimoseá-lo com cartazes e palavras de ordem. Quando a notícia do cancelamento foi divulgada, acabara de ler um conjunto de informações sobre a corajosa atitude do presidente da Grécia exigindo ao ministro das Finanças da Alemanha respeito pelo seu país e pela dignidade do seu povo.

Não pude deixar de estabelecer paralelismo imediato entre a firmeza de um e a conveniente esquiva de outro. No estado em que as coisas se encontram no plano económico e social e depois dos fatais queixumes sobre as pensões que recebe, Cavaco Silva bem pode preparar-se para confinar a sua visão de Portugal ao Palácio de Belém e ao percurso entre este e a Travessa do Possolo, onde vive. Só tem uma hipótese, se não quer ferir os ouvidos sensíveis: refugiar--se na redoma de cristal com vista para o Tejo. É o que menos se espera do mais alto responsável do País, mesmo tendo em conta a fragilização que vem sofrendo, espelhada na impopularidade que as sondagens registam, inédita entre Presidentes no activo. Exige-se-lhe que dê a cara, sem meter o rabo entre as pernas, no apoio ou na crítica, por um País melhor, o que passa por colaborar activamente na busca de soluções para os problemas, por procurar consensos que tragam alguma harmonia ao ambiente político, por criar condições que facilitem a adopção das medidas estruturais sempre adiadas, por evitar abusos dos poderosos e por se colocar na primeira linha da ajuda a quem mais precisa.

O que menos se admite é que o Presidente se furte ao contacto com a realidade, por mais adversa que se apresente, permitindo que se especule sobre a verdadeira dimensão do seu carácter. Não há cautela que justifique a cobardia ou a pusilanimidade.

Uma coisa, por exemplo, não se pode apontar a Passos Coelho: falta de frontalidade. O primeiro-ministro assume o que faz com a convicção, porventura exagerada, de que as opções que impõe são inabaláveis. Não chuta responsabilidades para ninguém. Nem sequer evoca – a meu ver, erradamente – a pesada herança que recebeu de Sócrates. O seu defeito maior é a teimosia cega na austeridade que o inibe de empreender, com a mesma veemência, acções que acelerem o crescimento económico. Há quase 800 mil portugueses oficialmente sem trabalho. 800 mil razões para que se bata o pé à troika e se reclame que é tempo de conciliar austeridade com desenvolvimento, o que implica estimular a economia. Até um cego vê que há correcções a introduzir na cartilha.

NOTAS*

12 - Francisco José Viegas: Escolheu um ex-secretário de Estado do PS para director-geral do Património Cultural. Louve-se o gesto, nos dias que correm, com tanto boy à espera de tacho.

10 - Vítor Gaspar: Os serviços públicos vão finalmente pagar as dívidas acumuladas. Mas a dez anos ! Na hora de receber, o Estado não perdoa. Para reembolsar é a perder de vista.

8 - Godinho Lopes: Num dia, confirma que Domingos Paciência não tem lugar em causa. No seguinte, demite-o. Ainda não é com esta direcção que o futuro chega ao Sporting.

7 - Pinto Monteiro: Lamentável na SIC. Não admira que, com ele, a desconfiança na Justiça não tenha abrandado. Os despachos sobre as escutas a Sócrates ficam para a História.

*Escala de 0 a 20

SOLTAS

Vontade a menos: Miguel Relvas diz que não se pode resolver os problemas das câmaras "deitando dinheiro para cima deles". Tem razão. A questão é que há municípios a mais e falta de vontade para os reduzir. A coragem fica-se pela eliminação do elo mais fraco: as freguesias, essas sim verdadeiramente perto dos cidadãos.

Luz a arder: O Benfica-Zenit, da segunda mão, promete ser um grande jogo. Os encarnados deixaram-se perder na Rússia, mas têm argumentos suficientes para anular a desvantagem. Jorge Jesus precisa, no entanto, de trabalhar muito com os dois laterais, indiscutivelmente os pontos mais vulneráveis da equipa. Sem facilitar.

Drummond incomparável: ‘A Rosa do Povo’ é um livro marcante no conjunto da obra de Carlos Drummond de Andrade e constitui uma espécie de fronteira entre fases distintas do seu percurso. ‘A Flor e a Náusea’ e ‘Carrego Comigo’ (belíssimos) são poemas ímpares e evidências claras de que o génio desafia a eternidade.

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