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Correio da Manhã

Opinião
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19 de Março de 2011 às 00:30

Temos um défice monstruoso, uma dívida que praticamente duplicou em apenas cinco anos, um índice de competitividade baixíssimo, um nível de desemprego demasiado elevado, um sistema de segurança social com enormes dificuldades para aguentar a pressão, um modelo de saúde que o Orçamento do Estado não consegue pagar e um dispositivo de Justiça em que ninguém confia, a começar pelo Presidente da República, que acaba de confessar colocar-se a ele próprio no topo da lista dos inconformados com o quadro actual.

Mais que um desabafo, é uma terrível admissão de impotência. Dele e de uma classe política que parece completamente incapaz de encontrar caminhos novos para um país cuja amargura aumenta à passagem dos dias. Há uma espécie de nó que ninguém desata . É uma sociedade tolhida a nossa : os empresários, para serem dignos do nome, deveriam procurar fazer-se à vida e deixar de sustentar os seus negócios à sombra do aconchego do Estado; os banqueiros, em vez de se concentrarem no essencial da sua actividade, alargam os braços para áreas onde, com frequência, a transparência se perde; os sindicatos não acertam o passo com o futuro, mantendo lógicas de actuação carcomidas pelo vírus do imobilismo, afastando-se das práticas que, noutras paragens, conferiram aos representantes da classe trabalhadora o estatuto de parceiros activos das mudanças que foram ocorrendo.

O rol seria ainda maior se quisesse aqui alongar-me. É natural que a indignação que, na semana passada, levou milhares de jovens às ruas não desarme, perante um panorama repleto de dificuldades e bloqueamentos. Até o Presidente, assumindo a promessa de ser mais activo, admite as suas angústias, o que, se tem a vantagem da verdade, só confirma que, tal como o País está, se revela difícil acreditar em alguém ou em alguma coisa. Na próxima semana, a estrada para as eleições será, provavelmente, inaugurada. Passos Coelho e o PSD, ao chumbarem o novo PEC , clandestinamente negociado com a Europa, assinam a sentença de morte do Governo. O líder laranja mostra-se, enfim, pronto a governar Portugal. Para tanto, precisa de uma maioria ampla, com ou sem o CDS.

Mesmo assim, há dossiers para os quais um acordo com o PS será essencial. Com Sócrates à frente dos socialistas tal nunca acontecerá, pela falta de confiança que desperta. Se, embora derrotado em eleições, o PS lograr ficar em torno dos 30 por cento sob a sua liderança, o sarilho em que os portugueses estão metidos não cessará. Para que o protectorado arruinado não se condene à extinção, o melhor mesmo é concluir que mais vale refundar Portugal. Uma operação tipo tsunami. Um processo de limpeza e reconstrução que permita um rearranque do zero e mobilize as energias e a ambição, que, apesar de tudo, ainda não morreram. É tempo de romper e acreditar em nova oportunidade com outra gente.

SOLTAS

OS ALUNOS É QUE PAGAM

As atribulações em que anda mergulhada a disciplina de EVT é de bradar aos céus. É um bom exemplo quanto ao peso das questões orçamentais nas políticas educativas. Mais do que melhorar o ensino, a preocupação é poupar. Desta vez, Mário Nogueira, da Fenprof, tem carradas de razão.

FAVAS E BANANAS

Teixeira dos Santos foi, agora, transformado no bode expiatório do Governo. A. Costa deu o mote, poupando Sócrates e arranjando quem pague as favas pela austeridade. É assim que o líder do PS lhe agradece. O ministro dispõe de uma boa ocasião para mostrar que tem coluna.

HOTEL NOVO MUNDO

Assim se chama o livro de Ivana Arruda Leite, a autora brasileira com cuja escrita tomei contacto pela primeira vez. Uma boa descoberta, por sinal, num cenário de privilégio. Por coincidência, passeei pelas suas páginas num dos mais belos e sedutores hotéis do Mundo: o Polana, em Maputo.

NOTAS (Escala de 0 a 20)

14 - AVELINO DE JESUS

Este homem discreto abandonou o grupo criado para avaliar as parcerias público-privadas. Fartou-se da falta de informação do Governo. Há quem não colabore com farsas.

12 - MÁRIO SOARES

Não poupou Sócrates pelo imperdoável esquecimento de informar o País e o PR sobre o que andava a cozinhar com a Europa. Soares já se deve ter arrependido de apoios passados.

8 - ANA JORGE

Protagoniza um caso típico de troca-tintas. Depois de anunciar que os preços dos medicamentos iam baixar em Abril, a ministra desdiz-se: afinal, ficam congelados por dois anos.

8 - NORONHA NASCIMENTO

Impressiona a incapacidade do pres. do STJ para se conter. Cada vez que fala, traz prejuízos à Justiça. É um caso de falta de jeito e de bom senso. Pior só mesmo Pinto Monteiro.

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