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Correio da Manhã

Opinião
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31 de Janeiro de 2003 às 00:39
1.Eu confesso nunca ter visto o "Bombástico", "O Crime Não Compensa" ou qualquer outro dos programas que fazem a polémica em voga. Mas também não preciso: pelo que li e me contaram, é fácil imaginar que se trata da caça às audiências mascarada de virtude, ainda que a "virtude", no presente contexto, seja no mínimo discutível.

Tão discutível que, atendendo a inúmeros pedidos, o Governo ralhou com os canais que passam coisas destas, e os senhores magistrados ameaçam-nos com processos e encerramentos. Tão discutível que os especialistas da praxe começaram, de facto, a discutir a necessidade de controlar as "grelhas" televisivas, mediante métodos que se aproximariam da censura, mas – o pudor manda – devem ser chamados "reguladores". Que estejam à vontade. Convém é notar que a censura, perdão, a "regulação", ou o cumprimento demasiado rígido da lei em vigor, podem abrir um apetecível precedente a políticos com tentações. E, sobretudo, o problema não passa exactamente por aí.

Sabe-se que muita gente não acredita na Justiça, o que, a avaliar pelo caos da dita, é compreensível. Como não custa entender porque tantos concedem à televisão o direito de preencher essa lacuna. A verdade é que, dantes, o jornalismo informava, as pessoas faziam o seu juízo e os tribunais, fosse caso disso, cuidavam do resto. Hoje, o entretenimento televisivo chama a si todas as responsabilidades: "informa", avalia, delibera. As audiências, fascinadas por esta receita de intriga e "vingança" instantânea, aplaudem; o Estado, aos pulos, promete castigos.

Ambas as reacções derivam do mesmo atraso. O poder absoluto para que as televisões caminham exige um público apático e iletrado, e não abdica de um Estado incapaz, débil e indigno de confiança. Pisar um acórdão é apenas um gesto idiota: o que dá que pensar é o entusiasmo que suscita. Ou seja, mais do que debater o "Bombástico" e afins, seria útil repensar o País que criou tais abjecções, que as comenta nos cafés e que as acolhe com elevado "share".

2. Os que se opõem à guerra acusam os EUA de esconderem os seus interesses por detrás de um falso "humanitarismo". A ignorância e a má-fé ajudam a debates acesos, mas não convivem bem com a realidade. Há um século que, em matéria de política externa, e consoante as administrações, os EUA oscilam precisamente entre um intervencionismo "alargado", que visa levar aos bárbaros uma amostra da democracia caseira; e um intervencionismo "restrito", apenas justificável em casos de segurança nacional.

A primeira tradição atribui à América um papel "evangelizador", ou "moral", e veio de Jefferson a Wilson (que inspirou a actual ONU) e a Clinton. A segunda forma, que prefere a garantia da força a efémeros tratados de paz, é (imagine-se) de influência europeia. Ganhou paradigma com T. Roosevelt, pondera a acção mediante o risco do "equilíbrio de poder", e, na essência, tem sido adoptada por George W. Bush.

Acerca do Iraque, e ao contrário do que fingem os "pacifistas", em nenhum momento Bush sobrepôs o argumento "humanitário" à necessidade de defesa dos EUA. Isto é, o provável ataque a Bagdad nunca foi legitimado pelos massacres e a miséria com que Saddam regularmente brinda os seus, mas pela ameaça que ele constitui para os interesses da América (sim, incluindo o petróleo – e depois?).

Ameaça que, por acaso, também pende sobre a Europazita, ressentida e amuada. Donde a carta ontem publicada em todo o mundo (por cá no "DN"), e assinada pelo dr. Barroso e mais seis chefes de governo europeus, é um pedaço de sensatez no meio do delírio geral. Ainda que tardia, encosta-nos aos EUA e consolida a nossa pertença a esse conceito, não tão vago como dizem, chamado Ocidente. De caminho, a carta isola o eixo franco-alemão e o pobre parlamento europeu – que, do alto de seu "humanitarismo", vêem na guerra o reflexo da íntima insignificância e a ruína das negociatas que o embargo ao Iraque fomentou.
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