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Correio da Manhã

Opinião
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16 de Agosto de 2006 às 17:00
Com ou sem cessar-fogo, não adivinho as consequências, a prazo, da guerra em curso. Não custa, porém, perceber que, num prazo mais longo, e acima de qualquer guerra, acima da deriva criminosa da Al-Qaeda, do Hezbollah, do Hamas e dos inúmeros grupelhos que fervilham em nome de Alá, decorre o autêntico combate, que já começámos a perder.
Após o ataque falhado da semana passada, voltou-se a perguntar com candura: porque é que eles nos odeiam? Há cerca de um ano, após os atentados consumados de Londres, uma revista inglesa colocava melhor a questão: porque nos odiamos? Não houve resposta. Mas o facto de que o Ocidente alimenta uma profunda repulsa de si próprio ficou por desmentir.
Somente no último século, o Ocidente sofreu abalos e ameaças inéditos, que ultrapassou com custos e vontade. Sobretudo no que respeita à vontade, as coisas mudaram. É verdade que, agora, as armas são incomparavelmente letais e o inimigo é furtivo. Mas o perigo real é este escasso empenho em preservar o que temos, que se confunde com o evidente desejo de destruir o que somos.
Trata-se de uma renúncia parcial: nós deixámos apenas de gostar de nós. De resto, esbanjamos paixão pelo ‘outro’, pelo exótico e, em suma, por aquilo que rejeita o que nos é essencial: do ‘eurocentrismo’ saltámos para um servil fascínio. Logo que seja avesso ao nosso modo de vida, o selvagem é bom. Se, de brinde, prometer arrasar connosco, o selvagem é perfeito.
É por isso que, dentro do ódio ao Ocidente, é o ódio aos EUA e a Israel que sobressai: ambos são casos raros de estados que nasceram democráticos e casos raríssimos de estados que querem continuar a sê-lo. E é por isso que o amor pelo ‘outro’ atinge o apogeu romântico face ao islamismo árabe e persa, que jura diariamente o nosso fim. Em certos meios, espera-se hoje da fúria islâmica o que antes alguns esperavam de Stalin e Hitler: um apocalipse ‘vingador’. Com uma diferença prática: mercê de vasta resistência, o comunismo e o nazismo não se impuseram às sociedades ocidentais; o Islão tende, sem grande esforço, a mandar nelas.
Basta olhar em volta. As ruas da Europa enchem-se de ‘pacifistas’, que condenam em público as ‘agressões’ ocidentais e exultam em privado com as matanças alheias. A Imprensa ocidental supera a Al Jazeera nas tentativas de manipulação. A UE recusa apelidar o Hezbollah de terrorista.
Os governos da UE escrutinam as ofensas a Maomé. Em Espanha, um primeiro-ministro embrulha-se na rodilha de Arafat. Na Inglaterra, ergue-se um parque de diversões ao gosto muçulmano, com restrições alimentares, código de vestuário e espaço de orações. Na Itália, preparam-se praias reservadas a devotas de Maomé, com respeitinho, véu e buço. E não esqueçamos os ‘intelectuais’ que regressam da Síria e do Irão com visões do paraíso (como antigamente regressavam do Reich, da URSS e de Cuba).
As amplas liberdades que, no Ocidente, cresceram em simultâneo ao capitalismo, à secularização, à racionalidade científica, à capacidade crítica e à inovação artística, deram-nos, naturalmente, a liberdade de renunciar a tais conquistas, mesmo que por troca com uma civilização repugnante, frustrada e, excepto pela habilidosa propaganda, literalmente primitiva. É estranho? É assim. O medo e a ignorância não explicam tudo: o ódio explica muito mais. Embora semelhante ódio não se explique.
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